Ensaio sobre o Amor e Ciúme: relações econômicas entre duas pessoas


Passamos boa parte de nossa vidas em busca de um “outro”.
De maneira geral, o amor pode ser considerado uma força que se manifesta de muitos modos, assim como a libido em Freud. Poderíamos associar o amor à muitos comportamentos ou estados mentais: proteção, idéias obsessivas, sentimento de plenitude. Eu me limito a discutir o amor como proteção, como ciúme,  relatado como um desejo de ter apenas para si a pessoa amada, ou uma reação à uma sensação de perda iminente do objeto amado, chegando ao extremo, em certos estados de muita confusão mental, à idéias que levam ao assassinato da pessoa amada.
Na relação com o outro empregamos, de modo inconsciente, mecanismos econômicos de troca. Com o ser amado temos tudo de que precisamos, a união parece simplesmente perfeita, há trocas de palavras gentis, caricias, o sexo explode em prazer extremo. Há de maneira inconsciente, na nossa cultura, um pacto de exclusividade, velado e não dito, como se houvesse um mecanismo mental para garantir no futuro as mesmas sensações prazerosas obtidas num tempo passado.
Ressalto que não percebemos que esses pactos são feitos, eles simplesmente acontecem, porque somos levados naturalmente à isso por conta da nossa constituição, envolvendo fatores ambientais – como por exemplo, os destinos da nossa relação com nossos pais (complexo de édipo) e genéticos. Há um modo especifico, não aleatório pelo qual nos relacionamos com o outro, e esse modo especifico dizemos que é o “nosso jeito” de lidar. O ser amado então toma um lugar em nossa história, que começa, sem sombra de dúvidas, quando nascemos e quando temos todo o carinho e proteção dos pais. Configura-se um triângulo amoroso, em que a mãe é provedora direta de vida e de um espaço simbólico criativo, passivo, permissivo(e tudo mais que o adjetivo feminino nos coloca) e o pai um provedor indireto, duro, agressivo, masculino. Ocorre então, nossa primeira aprendizagem no que diz respeito as relações inter-pessoais. Geralmente essas relações se expressam de modo muito simples no bebê, como um choro significando fome, certas caretas e birras, como desconforto térmico, balbucios como uma amostra de agradabilidade. O fato é que quase todos os estados desagradáveis do recém nascido, desencadeiam uma resposta comportamental clara que é entendido pelos pais, e essa necessidade é logo suprida. É eficiente!
Com o desenvolvimento, vão se moldando novas maneiras de se relacionar com o mundo inter-pessoal e adquirimos novas estratégia para obter satisfação de nossa necessidades, que já não são mais as mesmas de quando nascemos. As estratégias e as necessidades não são mais as mesmas, a priori, porem o prazer advém da mesma fonte cerebral do recém nascido (sistema meso-limbico dopaminérgico?). Vemos então uma ligação provável entre o prazer sentido no adulto e no bebê.
Temos então, um casal adulto, expressando de ambos os lados, necessidades afetivas, demandas atencionais possivelmente semelhantes as de um bebe. Não acredito que as demandas sejam muito diferentes, uma vez que o sistema neuronal de prazer é basicamente o mesmo e que Freud demonstrou  razoavelmente bem esse estado alucinatório. Então, neste hipotético casal adulto, vou considerar que vemos uma trama de desejos moldados de forma inconsciente, e moldado em épocas inicias da vida. Para ilustrar melhor, podemos perguntar a qualquer um “se sabemos exatamente o que no outro nos completa”, “o que queremos da outra pessoa” e a resposta seria na maiorias das vezes confusa ou um senso comum, o que indica quase uma mentira infundada. Além disso, é notável que casais brigam por coisas infantis e tolas, das quais acabam até se esquecendo ou relatando posteriormente como “bobagens infantis”.
O que me chama a atenção é a relação econômica que estabelecemos com o outro. No amor damos muito, mas recebemos muito também. Há no momento do laço, uma abertura de trocas desse moeda inconsciente. E o sistema nervoso de algum modo sabe medir o quanto temos em caixa e assim o quanto precisamos, de modo que, se damos mais que recebemos há um alerta geral do organismo, cuja expressão pode ser algum sentimento estranho ou desconfortável que experimentamos frente à pessoa amada, e não nos damos conta do porque. Talvez o sentimento de plenitude do amor, seria um estado de equilibrio ou crédito deste sistema econômico.
A PERDA
A realização de desejos, proporcionando prazeres que nos remetem a uma satisfação quase infantil e alucinatória, não é esquecida ou eliminada facilmente de nosso psiquismo, e esse fato constitui um dos problemas do sentimento de perda amorosa, que podemos genuinamente chamar de luto. Quando há o rompimento de um laço amoroso, pode ser que os dois estejam em comum acordo, sempre existe um leve ou pesado sentimento de perda, que pode ser o reflexo do fim das trocas econômicas apresentadas anteriormente ou a predição do esvaziamento desse sistema hedônico.
Há então que se buscar uma nova fonte de prazeres, uma nova fonte de trocas, que se não forem sexo-eróticas, que sejam sublimadas em arte, afazeres domésticos, ou no pior dos casos, esse poderoso desamparo pode iniciar um processo neurótico mais forte. Os relatos comuns são de que “como posso ver aquele que tanto amei, amar outra pessoa, como posso vê-la do meu lado, com outra pessoa, imaginá-la na cama com outra pessoa, isso tudo dói demais em mim”. Se fossemos totalmente conscientes e racionais, essa dor não incomodaria, uma vez que os fatos dizem que é hora de buscar outra fonte de prazer, é hora de mudar de vez a vida; mas isso não acontece de maneira tão fácil. Com a perda, o sentimento de desamparo, nos faz geralmente experimentar situações terríveis de desconforto somático e psicológico.
Comumente, há um sentimento que pode ser facilmente confundido com amor, mas que na verdade, é a expressão da necessidade corpórea de prazer, sobretudo em casais de longa data que estabeleceram fortes laços de amor e prazer retidos em memórias devidamente carregadas de um grande valor afetivo. Tudo já foi dito e resolvido, não há mais maneira deste casal hipotético continuar. No entanto, quando uma pessoa vê a outra em situação amorosa com outra, a inevitável dor aparece, como se o corpo estivesse pedindo novamente o que é seu; irracionalmente volta um dito “sentimento de amor” pela outra pessoa, que é visto com estranhamento, e não tem muita razão de ser. Seria bem diferente se essa pessoa (na verdade aquela que foi vista em relações amorosa com outra) estivesse triste, desolada, isso indicaria que ela está em falta, e possivelmente precisando novamente das trocas amorosas: a outra pessoa não sentiria a dor, de maneira alguma.
Este amor se manifestou como tal, mas na verdade é apenas um sentimento de posse com algo que historicamente fornecia muito prazer. Do mesmo modo que o bebe chora, ao se interromper o ato de mamar, ou ao se retirar a chupeta, sentimos tal desconforto quando nos é retirado nossa fonte de prazer, mesmo que essa fonte não seja mais conscientemente querida, mesmo que já tenhamos racionalmente nos desfeito dela, por decisões e planos conscientes.
A troca de afetos que se configura entre duas pessoas ao longo do tempo é seguramente inconsciente, e obedece à um sistema econômico que vai adquirindo complexidade grande, a ponto de alucinar o total suprimento de algumas demandas por completo. O amor aparece como uma sensação de fundo e ao mesmo tempo como a energia que move a mente na busca de preencher as faltas, que na verdade são presenças de um algo vazio em nós. Como se em nossa mente, moldes de memória fossem incrustados, e quando da perda ou luto, esse molde permanecesse, só que agora vazio. Este vazio é sentido com extremo desconforto, e busca–se então preenchê-lo ou destruir este molde mnemônico. O luto pode ser a perçepção de um processo “auto-imune psíquico” que busca destruir esses moldes  menmônicos.

5 comentários

  1. Só estou comentando para parabenizar o seu ótimo texto, e por notar que um belo texto reflexivo como esse recebeu somente um comentário e infelizmente pobre. Apesar de já se ter passado bastante tempo, tenho esperança que você leia e receba, gravados aqui, meus parabens cibernéticos.

    Abraço.

    Curtir

  2. Talvez seja tolice, mas entre uma paixãozinha ou outra, ainda hei de deparar com quem goste de trocas avassaladoras, que não tenha medo de amar, de perder, de sofrer.

    não sejamos covardes
    baci.

    Curtir

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s