O Homem Des-Humanizado


“O Homem não é conceito, nem coisa; é pessoa”
Alexander von Humboldt (1769-1859)
Não bastasse o domingo propriamente dito, aquela sensação de que mais uma semana começa, e de recebermos quase um convite da própria vida de morrermos e renascermos; ligamos a televisão: Vemos então adultos comprando bonecas, quase imitações perfeitas de bebes. Adultos fazendo festas infantis, pois não tiveram uma quando crianças, e para fechar, mãe e filha brigam e se desentendem, mas logo chegam a conclusão de que precisam conversar para resolverem seus problemas, graças aos psicólogos irredutíveis.

Como não deixaria de ser, numa sociedade desinformada e carente de tudo, precisamos por a culpa em alguém ou algo. As drogas aparecem como grandes vilãs da historia: Fulano fez tal coisa, porque bebeu: as drogas matam! Cuidado com as drogas, elas podem matar você! Começa a caça aos motoristas bêbados. No caso da adolescente que é muito rebelde, não tardamos a considerar a rebeldia como um sinal de mau comportamento e que deve ser punido ou evitado, e nos esquecemos que este período é fundamentalmente marcado pela rebeldia, agressividade e construção do caráter e de sonhos. Uma adolescência rebelde é o “normal”, mas em nossos tempos, em que qualquer fuga das normas é tida como patológica, buscamos as palavras dos especialistas, pois temos medo.

A palavra ‘adolescência’ tem sua origem etimológica no Latim “ad” (‘para’) + “olescere” (‘crescer’); portanto ‘adolescência’ significaria, ‘crescer para’. Cresce-se para algo então. E como um adolescente vai crescer se não obtém experiências, que muitas vezes são completamente diferentes das dos pais?
Imaginemos a cena: Um homem sai de um bar pega seu carro. No caminho de casa atropela e mata uma senhora e seus dois filhos. Uma cena terrível. No entanto, será que podemos afirmar que o que causou tal acidente foi a ingestão de uma droga? Este homem não é plenamente responsável de seus atos? O que está por traz de tal ato? Porque este sujeito não se questionou ao sair com seu carro? Pode-se falar que as drogas atrapalham o julgamento pleno das ações, mas as drogas teriam a capacidade de limitar por completo o julgamento de um homem? Ou este julgamento já se encontra comprometido antes mesmo de se ingerir qualquer droga?

Parece que a população brasileira se conforma com uma postura paternalista do estado, que acaba por oferecer proteção e não segurança. Deste modo somos atropelados por leis e proibições que nos dizem algo como: ”Você não sabe o que faz e terá que ser punido por tudo que eu quiser considerar errado”. Na verdade, somo tratados como bobos pelo estado, tanto na forma de cobrança de impostos em demasia como na ausência de direitos básicos constitucionais.

Chego tortuosamente ao ponto que remete ao titulo deste texto; tanto para a adolescente que briga com a mãe, quanto para a grande maioria que bebe com moderação, somos desumanizados no sentido de estamos cada vez mais cercados por regras sem sentido, por perda da liberdade de expressão e perda do direito de ser diferente. E parece que perdemos tudo isso com certo prazer, com o falso pressuposto de que as coisas vão se resolver deste modo. Como se estivéssemos burocratizando o próprio ato de viver.

2 comentários

  1. Achei este, particularmente, muito bom (ainda vou ler os mais novos). Concordo com sua visão, e não para “puxar o saco” para que goze mais distante (uhauha), mas sim para com a idéia de experinências distintas, experiencias que nos fazem por crescer, únicas e particulares. Aliás, sobre a adolescência, Contardo Calligaris escreveu um belo livro, o qual ainda não li, mas ja o vi falar sobre o mesmo em um café filosofico. Parece bem interessante.

    Abraço.

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  2. Gostei muito deste texto….”burocratizando o ato de viver…” sempre presos na covardia…esse é o ser humano q somos…

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