Blog “Freud Explica” explica


Tenho procurado saber sobre a profissão de psicanalista, as legislações envolvidas no Brasil e no mundo, as experiências dos mais experientes.

Abaixo vai a curta correspondência entre o psicanalista e biólogo carioca, Rogério Silva ( http://freudexplicablog.blogspot.com) com o qual tenho tido o prazer de aprender, e quero dividir com todos.

Luis Fernando( Sinapse Oculta) pergunta

Ola Rogério,
Percebi que você é biólogo e psicanalista. E temos algo em comum.
Me formei em biologia pela USP-RP, e ao mesmo tempo fiz e faço um curso em psicanálise. E já estou atuando como psicanalista.
Estou cheio de duvidas quando a legislações que envolve essa atividade de psicanalista, sendo que tenho um diploma de biólogo.
Tenho medo de ter problemas futuros com isso.
Você já passou por alguma experiência problemática com isso?
muito obrigado

Rogério responde:

Quando você diz “já estou atuando como psicanalista” eu entendo que você está falando de clínica psicanalítica. No que diz respeito à legislação eu digo o seguinte:

–>Não existe no Brasil a regulamentação da profissão de psicanalista. Aliás não é apenas o caso do Brasil. Creio que nem a Áustria regulamentou a profissão de psicanalista.

–>Alguns países como os Estados Unidos, além de não reconhecer a profissão, proíbem o exercício (de psicanálise) por parte qualquer profissional. Lá só existe o psiquiatra e o psicólogo. Com uma formação idêntica a da psicanálise daqui, atuam em seus consultórios (médico ou psicológico) intitulados de psicoterapeutas. Vide o livro “Mentiras no divã” de Irvin D. Yalom.

–>O Brasil difere em muito desse modelo pois aqui existem vários institutos de formação psicanalítica, com diversas denominações: Freud, Lacan, Bion, Winicott, etc.. Alguns, filiados à IPA exigem o diploma de médico e/ou psicólogos para os cursos de formação. A maioria, hoje em dia, aceita profissionais de diversas áreas para o curso de formação, como parece ser o seu caso.
Como já disse anteriormente, no Brasil, pelo menos, não existe a profissão de psicanalista, portanto não existe proibição e nem permissão. O que existe é o jeito brasileiro de resolver as coisas. Os médicos tentaram, e continuam tentando, corporativamente fazer da psicanálise uma disciplina médica. Os psicólogos também já tiveram problemas com isso. Hoje em dia já enfrentam os médicos com igualdade de condições.
Atualmente há até um grupo de evangélicos (cerca de 7.000) que entrou com um pleito de regulamentação da profissão de psicanalista no congresso. O pior é que eles acreditam que podem curar a psicose com Cristo(?).

–>Como não existe, do ponto de vista legal, a profissão de psicanalista, não existe também a clínica de psicanálise. Os médicos embora intitulados de psicanalista, atuam em seus consultórios médicos e os psicólogos também atendem em seus consultórios de psicologia.

–>Na década de 80 iniciou-se aqui no Rio de Janeiro um movimento, intitulado “Os barões da Psicanálise” que tinha como propósito dirimir sobe essas questões, como outras no que diz respeito à Ética.

–>A questão legal agora recai sobre a ação das prefeituras, pois cabe a elas concederem o alvará que permite a atuação do profissional. Quando você vai à prefeitura e procura saber sobre a documentação nescessária, dentre as exigências você encontra uma que diz respeito ao registro no conselho profissional (CRM ou CRP).
No Município do Rio de Janeiro, há cerca de dez anos, vários profissionais; assistentes sociais, engenheiros, professores, jornalistas, biólogos etc. já conseguem seus alvarás junto à prefeitura. Muitos até são médicos ou psicólogos que querem ser identificados como psicanalistas. Essa talvez seja uma tentativa de formalizar a profissão.
Não posso falar com certeza, mas creio que a Cidade de São Paulo também exerce essa prática. Eu mesmo tenho alvará para o exercício clinico na Cidade de Marques de Valença no Estado do Rio de Janeiro, desde o ano de 1999.

–> Freud quando escreveu a ”A questão da análise leiga”, pensava estar resolvendo esse problema para o futuro. O que conta são as legislações municipais, pelo menos no caso do Brasil.
Espero ter-lhe dado suficientes argumentos para que consiga o seu pleito. Informe-se junto a prefeitura da sua cidade e prossiga na postulação de seus direitos. Eu gostaria de ser informado de seus passos e, se for o caso, posso lhe subsidiar com outras informações.

Luis Fernando responde:

Desculpe a demora pela resposta de seu e-mail. Você foi muito atencioso para com minhas dúvidas e lhe agradeço.
Você citou o texto de S. Freud “A questão da analise Leiga”, e lhe digo que este texto, digere todas minhas preocupações a respeito da nossa prática, sendo que somos biólogos.
A meu ver, se fossemos definir a formação acadêmica e as inclinações pessoais de Freud, enquadraríamos ele muito mais na biologia, do que na medicina ou psicologia (que estava nascendo na época)
Portanto, acredito que Freud era um biólogo, investigativo e curioso cujas idéias se estabelecem e tomam corpo a partir da biologia evolutiva de Darwin (para ele, o grande Darwin, como nos diz o livro de Peter Gay, “Freud, Uma vida para o nosso tempo”)
Lhe envio em anexo dois textos que consegui na net, que estão me esclarecendo melhor a psicanálise como pratica.
Alem disso, comecei a ler o livro didático de David Zimerman, Psicanálise, teoria e pratica; e assim penso, como os psicólogos (alguns deles) estão longe de entender o que Freud queria com a psicanálise.
Vemos o movimento de certos psicólogos em definir todas as psicoterapias como pratica exclusiva de psicólogos (lhe envio um anexo sobre esta lei), e se esquecem que a psicanálise e ciência livre de qualquer gueto.
Bom, espero poder continuar nossas correspondências

Rogério responde:

Isso Freud já fazia. Ele se correspondia com Fliess, Lou Salomé, Ferenczi e com outros numa época que não existia e-mail e as cartas demoravam a chegar aos seus destinos.
Os biólogos de antigamente eram formados em medicina. Não existiam cursos de formação de biólogos. Ferenczi quando escreveu Talassa, era mais biólogo do que psiquiatra do exército, que é o que ele era. Esse é um texto típicamente biológico e o Um Esboço de Psicanálise, de Freud também.
Estarei publicando os seus anexos brevemente.
Também indico o livro “Quando Nietzsche Chorou” de Yalom que toma Breuer como um pendam de Freud. O livro é ficcional enquanto apresentação, mas é verdadeiramente informativo enquanto conteúdo. É incrível como ele conseguiu fazer um encontro pessoal, que nunca houve, parecer verdadeiro e fiel às idéias de cada um.

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