DOUTOR, EU SOU LOUCO?


Hospital Salpêtrière na França

“A loucura se inscreve em um lugar polêmico. Com o declínio do Feudalismo, o Estado, buscando formas de organização, se deparou com uma população de indivíduos que não se adequavam à nova ordem social. A partir da Idade Média surgem instituições que recebiam toda espécie de pessoas que não se incluíam no modelo social estruturado (Foucault, 1972).

__

 

 

Imagine só esta pergunta ecoando nos tempos. Provavelmente, se perguntada na idade media, não faria o menor sentido. Primeiro porque pessoas com formação de doutores não saberiam responder a esta pergunta, e na verdade não estavam interessados em respondê-la. Segundo porque qualquer pessoa que tivesse um comportamento que se desviasse do normal, poderia virar churrasco.
Mais para frente na nossa historia, a mesma pergunta não levaria tal sujeito para a fogueira, se tivesse dinheiro ficava em casa trancado sob os cuidados da família, mas se fosse pobre, era trancafiado em hospícios, onde a psiquiatria nascia.

A psiquiatria nasceu no século XVIII, quando foi dada ao médico a incumbência de cuidar de uma determinada parcela da população excluída do meio social, que se encontrava reclusa em instituições onde eram colocadas todas as espécies de indivíduos cujas condutas não coadunavam com a moral da época. Ou seja, os loucos conviviam em instituições fechadas juntamente com leprosos, prostitutas, ladrões, vagabundos, etc. (Jorge, 1997)

Assim, nossa pergunta começa a fazer sentido: A palavra “Doutor” já se dirige aos médicos cuja especialização se refere aos fenômenos psíquicos; e já percebemos um olhar médico-científico sobre os problemas da loucura, deixando de lado a espiritualidade e explicações obscuras (a humanidade deixa de fazer churrasco com humanos em nome de Deus). Enfim, a loucura começa a fazer sentido para nós. Philippe Pinel e posteriormente Jean Etienne Dominique Esquirol, na segunda metade do século XVIII, lideram um grande movimento no sentido de “dar sentido” a loucura, considerando fatores sociais, econômicos e genéticos na determinação de tais enfermidades.

Sustentados pelas asas da razão, a humanidade consegue, se não resolver, pelo menos espreitar a mente de um humano “louco”. E nesse momento vou citar Sigmund Freud, o pai da psicanálise, que dedicou toda sua vida na investigação dos processos mentais “normais” e “patológicos”, os aproximando de maneira assustadora e, ao mesmo tempo, fascinante. Perguntar então para Freud: “Doutor, eu sou louco?” provavelmente não faria muito sentido, de maneira que as psicopatologias estão intrínsecas a atividade mental normal (ver em “Psicopatologia da vida cotidiana”) e o Doutor Freud, iria tentar, por meio da associação livre de idéias, interpretação dos sonhos etc., escavar os escombros da mente do paciente, até encontrar pontos significativos da vida mental inconsciente do paciente, e tentar torna-la consciente.

Chegamos na atualidade, em que temos de tudo um pouco do que já tivemos em nossa história, somado ao preciso auxílio da neurociência moderna, que produz drogas e técnicas novas que auxiliam o tratamento. Importante dizer que as medicações oferecem um caminho ilusoriamente fácil e rápido. No caso de uma dor de cabeça, tomamos um analgésico e pronto (“Tomou Doril, a dor sumiu!”), mas infelizmente a ciência e a prática clínica têm mostrado que nas “dores da mente” não podemos contar, de modo tão inequívoco, com a ajuda dos psicofármacos.

Como sempre na historia da humanidade, é preciso ir além. Alem do entendimento da alma humana, das dores psíquicas e dos conceitos de normalidade e loucura.

Textos de Referência:

Foucault, M. 1972. História da Loucura na Idade Clássica. Editora Perspectiva. São Paulo

Jorge, M. A. S. 1997. Engenho dentro de casa: sobre a construção de um serviço de atenção diária em saúde mental. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública.

Anúncios

1 comentário

  1. Rapais… Oia.. Ontem li um texto que trata de tema análogo, sabe onde (?), no blog do Contardo Calligaris. Não me lembro do título, mas procura lá, tem alguma coisa a ver com o uso dos anti-depressivos…Muito bao! Gostei do texto!Abração.

    Curtir

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s