CARTA ÍNTIMA PARA OS LEITORES QUE ESTÃO SE INICIANDO COMO TERAPEUTAS PSICANALÍTICOS


POR DAVID ZIMERMAN

Porto Alegre, 2003.

Meu prezado jovem colega:

Dirijo-me nesta carta especialmente a você que, em conjunto com outros jovens, constitui o meu público predileto. Aqui, emprego o termo jovem não só no sentido cronológico, mas principalmente para caracterizar aquelas pessoas que, independentemente da idade, são jovens de espírito, isto é, mantêm sadia curiosidade, garra, tenacidade e afanosa disposição para ler, estudar, conhecer e refletir.

Acredito que vocês têm uma mente aberta, ao contrário de muitos outros colegas que ainda estão aferrados a determinadas ideologias analíticas com as quais estão de tal modo familiarizados que correm o risco de se manterem algemados e estagnados, prisioneiros daquilo que já sabem e praticam. O mais lamentável é que assim procedem de uma certa forma estereotipada, não obstante possam estar repetindo equívocos de manejo técnico ou ancorados em conceitos certos, porém já superados por sucessivas transformações da prática analítica.

Creiam, não estou exagerando, o risco de incidirmos em um processo de anquilose mental é maior do que possa parecer: Por tudo isso, meu estimado jovem, decidi abrir a você o coração e a experiência para, em um tom o mais informal e coloquial possível, passar um pouco das reflexões que venho fazendo, fundamentado em uma já longa vivência de prática psicanalítica.Com o propósito de conservar o espírito didático que animou a feitura do presente livro, nesta carta aberta também utilizarei o recurso de separar os parágrafos, seguindo uma enumeração, e mantendo uma relativa independência das idéias expostas em cada um deles.Relevem o fato de que eu possa estar parecendo pretensioso, ditando recomendações técnicas, quando sabemos que cada um de vocês, na imensa maioria das vezes, está sendo acompanhado, de perto, por textos e ensinamentos de excelentes autores, professores e supervisores. Apesar .do meu receio de que venha a ser assim julgado, mantenho-me tranqüilo, pela convicção de que estou agindo de boa fé e de que as idéias que a seguir emitirei visam funcionar como uma espécie de epílogo deste livro, com uma visão sinóptica, ainda que muitíssimo reduzida, de conceitos expressos em distintos capítulos.

1.Inicialmente, caro leitor, desejo enfatizar a importância que adquire, na técnica analítica, portanto no processo terapêutico, a sua atitude psicanalítica interna, isto é, qual é, de fato, a sua autêntica posição cognitiva e afetiva diante da ciência e da arte da terapia analítica, e, principalmente, diante do paciente que está à sua frente, entregando-lhe os bens mais preciosos que ele possui: os seus mais íntimos segredos, a esperança de que você acredite nele e que esteja junto dele!

2. A propósito, tenha em mente essa bela frase de Bion:Em algum lugar da situação analítica, sepultada sob massas de neuroses, psicoses e demais, existe uma pessoa que pugna por nascer. O analista está comprometido com a tarefa de ajudar a criança a encontrar a pessoa adulta que palpita nele, e por sua vez, mostrar que a pessoa adulta ainda é uma criança. (1992b, p. 49)

3. Esta frase expressa com clareza o quanto devemos estar atentos, com nossa visão psicanalítica, binocular ou multifocal, enfocada

nos múltiplos aspectos que habitam e interagem dentro de um mesmo paciente, de forma permanente, e que, com freqüência, estão em contradição, oposição, incoerência e com conflitos entre eles. São aspectos ocultos, à espera de que você, mercê de sua sadia curiosidade analítica, ilumine-os e os nomeie.

4. Assim, meu jovem colega, resgate a criança curiosa e filósofa que dorme em algum canto do seu self (e no de seu paciente). Toda criança sadia é uma filósofa – essa palavra vem de philos (amigo das) + sofos (verdades) -, desejosa de conhecer a origem, o como, o porquê e o para que dos mistérios da natureza. Elas interrogam continuamente; o lamentável é que os educadores adultos, na maioria das vezes, distorcem, reprimem, confundem e sepultam este inato dom epistemofílico. Tome cuidado para que não façam essa esterilização com você ao longo de sua formação e, igualmente, para não que não faça o mesmo com seus pacientes.

5. Portanto, de forma suave, porém consistente, reaja contra esses eventuais educadores repressores de sua curiosidade filosófica, os quais, agora, de alguma forma, estão internalizados em você, ou se prolongam para fora de si, nas pessoas de algum eventual dirigente, professor ou supervisor. Dê asas à sua imaginação (ou seja, permita em muitas ocasiões que a sua imagem se transforme em ação, como ensinava Bion), com vistas a libertar a sua criatividade.

6. Para que você seja bem-sucedido no resgate de sua parte criança-curiosa, filósofa, imaginativa, criativa, é imprescindível que tenha bem estabelecida a diferença que existe entre uma curiosidade patogênica e uma sadia. A primeira é de natureza essencialmente intrusiva, invasiva, invejosa e controladora. A segunda, é uma curiosidade saudável e estruturante do psiquismo, visto que conduz a um estado mental interrogativo, aliado a um amor pelas verdades, o que conduz a um sentimento de o analista sentir-se verdadeiro e autêntico. É este último atributo que diferencia um analista de outros que estejam exercendo a sua função não mais do que mecanicamente, embora cumprindo as regras técnicas que eles aprenderam, por mais adequadas que essas tenham sido.

7. Destarte, não se apoquente com a sua relativa ignorância; pelo contrário, faça um bom uso dela. Aplique para si mesmo, e para o seu paciente, o “método maiêutico” preconizado por Sócrates, que induzia o interlocutor a reconhecer a sua própria ignorância e, a partir daí, encontrar e partejar possíveis soluções e novas aberturas. “Novas aberturas” não quer dizer que elas devam ser certas, ou originalíssimas, mas, sim, simplesmente, que elas sejam outras…

8. Incorpore, portanto, o “princípio da incerteza”, do filósofo Heisenberg, que Bion adotou e divulgou como sendo uma condição necessária para que alguém seja um bom psicanalista. Este princípio – hoje aceito por todas as ciências, logo, também pela psicanálise – alude ao fato de que a verdade é sempre relativa, e que a significação dos fenômenos observados dependem, em grande parte, da atitude e da posição do observador. Ademais, os físicos que ensinam a teoria quântica demonstram que, conforme a variação de algumas circunstâncias, o fenômeno da propagação da luz ora se faz sob a forma de partículas, ora de ondas. A propósito, caso você tenha se interessado por essa nova postura científica baseada na importância de que as incertezas são férteis, cabe-me lhe recomendar a leitura do livro Fim das incertezas, de Ylia Prigogine, um cientista russo, nascido em 1917, que vive na Bélgica desde os 12 anos e que, em 1997, recebeu o prêmio Nobel de Química.

9. Como decorrência do mencionado princípio, na sua prática clínica, cuide-se para não cair e, tampouco, deixar o paciente cair em um dogmatismo moralista e doutrinário, com respostas já antecipadamente prontas e acabadas, do que resulta um sensível prejuízo da curiosidade, pensamento e escuta. Saiba que é bastante comum que um terapeuta iniciante apegue-se dogmaticamente às suas certezas, como um recurso para sentir-se mais seguro, e que ele tente convencer seus pacientes dessas mesmas certezas enlatadas para, igualmente, reassegurá-los também. A psicanálise contemporânea enfatiza a necessidade e o objetivo de aceitar as contradições inconscientes, diferentemente dos princípios positivistas clássicos e da lógica racional de Aristóteles.

10. Desta forma, desenvolva ao máximo possível o atributo que Bion chama de “capacidade negativa”, a qual se refere àquela capacidade que de negativo só tem o nome, uma vez que ela é altamente positiva pela razão de que alude à capacidade de o terapeuta analítico conseguir conter os seus próprios sentimentos negativos, de incertezas, dúvidas, angústia de não saber o que está se passando no campo analítico, e, é evidente, ele também deve conter os difíceis sentimentos contratransferenciais que, às vezes, surgem. Tenha paciência, meu caro, até que as coisas se esclareçam na sua mente, para poder, então, trabalhar harmonicamente com o seu paciente.

11. Se você já está em formação analítica em alguma instituição conceituada como séria e competente, ou pensa ingressar em alguma destas, “vista a camiseta” dela, mesmo tendo eventuais discordâncias com a mesma. Empenhe-se ao máximo na aceitação (é diferente de submissão) e na preparação de todos os seminários teóricos e técnicos, pois os mesmos propiciam um estudo sistematizado de textos consagrados, com um franco debate com professores e colegas. O mesmo vale para atividades coletivas que reúnem membros e candidatos da instituição, sob a forma de apresentação de trabalhos clínicos, conferências de visitantes, feitura e debate de relatórios, além dos demais trabalhos. Igualmente, sempre que possível, participe de tarefas administrativas, porque isso ajuda a forjar uma identidade psicanalítica. Se você tiver condições, participe de jornadas e congressos, de modo a conhecer outros colegas e ficar sendo conhecido, bem como para cultivar vínculos e fazer novas amizades. Tudo faz parte da construção de um indispensável sentimento de identidade de terapeuta psicanalítico. Ademais, também pesa o fato de que, se você quiser alguma variação na sua forma de trabalhar analiticamente, deve antes concluir uma formação clássica, de acordo com as diretrizes de sua instituição.

12. Não obstante eu reafirmar tudo o que já foi dito, cuide-se porque o analista pode correr o risco de ficar prisioneiro de sua formação, mercê de um, possível, certo terrorismo que alguns responsáveis pelo ensino, assumindo o papel de vestais, fazem em nome da salvaguarda de uma rigorosa e cerrada ideologia da técnica psicanalítica. Isso pode induzi-lo a trabalhar sob a forma de uma “obediência automática”, atrofiando a sua capacidade para indagar, pensar e criar. Daí decorre a explicação de por que algum analista, nessas condições, diante de situações imprevisíveis, angustiantes e singulares do paciente, fica cego (para uma outra visualização), surdo (a uma escuta empática) e paralítico (a uma ação adequada).

13. Exagerando um pouco, creio que vale fazer uma paródia da conhecida frase: “[…] existem mestres que ajudam o aluno a se tornar livre e mestres que criam escravos”, de sorte que algo equivalente pode acontecer com um candidato em formação, que, então, fica amordaçado por um superego analítico. Entendo que um excessivo apego às teorias, sejam quais forem, ou às expectativas do aludido “superego analítico” provocam a perda de um aquecido “contato” com o paciente.

14. Também é muito provável que, ao longo de sua formação, uma das decepções que muito provavelmente você já sentiu ou virá a sentir é quando perceber que freqüentemente existe uma certa incoerência e hipocrisia entre aquilo que muitos colegas e professores professam e escrevem e aquilo que realmente praticam no cotidiano de seus consultórios.

15. Nesta mesma linha de percepção e observação, se você quer identificar um professor, conferencista, supervisor, analista ou a você mesmo, se é autêntico ou falso, procure observar se há coerência entre o que ele fala, faz e o que, de fato, ele é! Por exemplo, nada mais falso (e, às vezes, grotesco) do que a constatação de um palestrante discorrendo, por exemplo, sobre a patologia do narcisismo, em uma postura flagrantemente sedutora, soberba, exibicionista, auto-laudatória, no limite da arrogância, sempre tomando a si mesmo como exemplo daquilo que deve ser o certo.

16. Tenha bem claro para si que o exercício do poder na instituição manifesta-se tanto por evidências diretas (nos casos exagerados: um flagrante jogo de sedução, conchavos, ataques sutis, calúnias dissimuladas, intrigas, boatos…) quanto indiretas. Neste segundo caso, os sinais de exercício e de disputa pelo poder aparecem disfarçados, seja sob a forma de uma sólida e bem costurada racionalização, seja um deslocamento para causas ideológicas, que é feito com um toque de sutileza, a idealização de uma certa corrente psicanalítica, fanatismo nas crenças, paixões fundamentalistas, uma catequese retórica e, principalmente, um rodízio de poder entre as mesmas pessoas, por meio de eleições democráticas e legais.

17. Também é muito provável que, ao longo de sua formação, mercê de algum sentimento de decepção, desilusão ou injustiça, ora aqui, ora acolá, você entre em um gradual processo de desidealização de sua instituição. Não desanime. Isto até saudável é, porque você poderá crescer bastante se aprender com as experiências de enfrentar e contornar as dificuldades. Não acredite na hipótese de que em uma outra instituição similar (salvo quando ela está no início) não surjam problemas próprios do campo dinâmico grupal, como são os problemas inerentes ao narcisismo das pequenas diferenças e o dissimulado jogo de poder que perpassa pela cúpula diretiva. A dinâmica grupal que preside qualquer instituição, quer política quer de ensino, etc., tanto na sua face sadia quanto na patogênica, é virtualmente sempre a mesma. Não há problema no fato de sua instituição ter problemas; o problema seria o caso de ela não propiciar um amplo espaço adequado para a discussão das situações e condições problemáticas.

18. Discrimine a diferença fundamental que deve existir entre uma indispensável presença de autoridade e um nefasto exercício de autoritarismo. Quando não há uma autoridade realmente capaz, qualquer instituição, de qualquer natureza, nos casos excessivos, implanta um autoritarismo disfarçado de paternalismo, no qual prevalecem obstáculos de dependência, infantilização, vínculos do tipo sadomasoquista, certo apoderamento da mente e anulação daqueles que estão no plano inferior da pirâmide hierárquica.

19. Não basta você perceber e discriminar aquelas pessoas do escalão superior que detêm a volúpia pelo poder. Também é necessário que não se deixe envolver nas malhas desse jogo político-narcisista, mercê de promessas de você atingir o altar do Olimpo, caso comungue das mesmas idéias e ações dos donos do poder. É óbvio que alguém tem que exercer funções diretivas, e muitos fazem isso de forma denodada e competente. Também é certo que muitos de nós têm um talento natural para as indispensáveis tarefas administrativas. O alerta que, aqui, foi dado deve ficar restrito aos casos em que possa ficar picado pela mosca azul da ambição desmedida e, assim, aceitar e lutar por cargos que de tão deslumbrantes podem cegar e atrofiar outras capacidades. Quando Bion aborda este assunto, ele emprega uma frase que cabe ser mencionada: “[…] repleto de honrarias, ele abafou sua autonomia e criatividade, de modo que morreu sem deixar vestígios […]”.

20. Esteja preparado: você pessoalmente, assim como seus pacientes, a sua instituição e também a própria IPA passarão por sérias fases de crises. No entanto, não se preocupe em demasia, pois é sabido que as grandes transformações formam-se em situações de crises em seu apogeu. Para tanto é necessário que haja uma escuta adequada, que permita refletir depressivamente sobre os problemas, além de uma capacidade para sentir e conter sentimentos e fatos dolorosos, de modo a poder crescer com as experiências.

21. Mais especificamente em relação a certas crises da instituição, elas podem transparecer por meio da formação de subgrupos. verdadeiras facções, que seguem de forma apostólica a liderança do psicanalista X, que freqüentemente são compostas por pacientes. ex-pacientes e, às vezes, supervisionandos dele, enquanto outros candidatos e psicanalistas mantêm-se como fiéis escudeiros do psicanalista didata Y, e assim por diante.

22. Uma dissociação análoga pode acontecer entre os que pertencem a tal ou qual instituição de ensino psicanalítico, em uma rivalidade que pode atingir um grau de radicalização, desafeição e denegrimento recíproco, ambos os lados proclamando que a verdade está com eles. Em certo grau, essa situação adquire uma configuração de um partido político ou de um movimento religioso que prega princípios rígidos daquilo que é o certo ou errado, em defesa da “verdadeira” psicanálise, porém que, no fundo, não passa de uma racionalização para o exercício de surdas querelas narcisistas, em disputa pelo poder: Em resumo, abra mão dessa sucessão apostólica e fique alerta para o fato de que muitos fazem da psicanálise uma religião, quando ela não deveria ser mais do que um método de tratamento, por meio de uma fascinante ciência e arte que ela é.

23. Reitero a minha posição, já expressada: diante das prováveis decepções com a sua intituição (fato que, reitero, acontece com qualquer outra, assim como com a própria natureza de nossas vidas), mantenha uma antocontinência, paciência e não se intimide. Não tome nenhuma medida precipitada, cresça e curta com tudo que você está recebendo, de bom, fértil e gratificante da instituição, a um mesmo tempo que aprenda a administrar os aspectos que o desgostam. Se possível, aprenda com as experiências emocionais, as boas e, principalmente, com as dolorosas.

24. O fenômeno da identificação é fundamental na sua formação como psicoterapeuta analítico. De forma análoga ao que se processa na criança que introjeta os modelos sadios e/ou patógenos, provindos especialmente de seus pais, também você está em pleno processo de fazer identificações com seu psicanalista. seus professores, supervisores… Lembre-se que, em situações patogênicas (na criança, no seu paciente, ou em cada um de nós), o objeto modelador tanto pode ser introjetado como todo-poderoso e divino, ou denegrido e demoníaco, assim provocando, respectivamente, uma predominante conduta de idealização, submissão, perseguição ou rebeldia. Não confunda identificação com imitação. O ideal é que você possa fazer múltiplas identificações, de sorte a incorporar alguns aspectos de figuras que você admira, e que lhe “servem como uma luva”, a um mesmo tempo que se dê o direito de ignorar outras características, mesmo das pessoas admiradas, que não “fecham com o seu jeito autêntico de ser”. Portanto, construa a sua própria identidade de psicanalista.

25. Neste mesmo contexto, construa também o seu próprio e genuíno estilo de trabalhar, sem nunca se afastar dos postulados essenciais que regem a técnica analítica. Cabe dizer que a técnica, com algumas variações de escola para a escola, mantém-se basicamente a mesma para todos os analistas, porém o estilo é bastante variável de um terapeuta para outro. Assim, algum de nós vai ser mais prolixo, enquanto um outro vai se caracterizar por ser mais silencioso; uns analistas são extremamente formais, outros, informais; alguns formulam as interpretações de uma forma sóbria e neutra, enquanto outros empregam um estilo coloquial, entremeando com o emprego de metáforas e coisas equivalentes. Respeitando a singularidade de cada situação analítica, e sem sair das regras técnicas, seja você mesmo! No entanto, esteja atento: muitos estilos de os analistas trabalhar adquirem um caráter patogênico no processo analítico, tal com está descrito no capítulo referente à “Atividade Interpretativa”, no presente livro.

26. Como síntese do que se pode considerar como um bom modelo para a pessoa do psicanalista, tomo a transcrição que Otávio Paz faz, ao citar a metáfora da “pomba”, do filósofo Kant: “Para voar, a pomba necessita vencer tanto a resistência do ar, como a atração para o solo, a força da gravidade; ela deve baixar à terra e encarnar-se entre os homens”.

27. É útil ter em mente que você não é unicamente uma pantalha transferencial tecida pelo paciente por meio de deslocamentos e identificações projetivas na sua pessoa. Você também é uma pessoa real, com sua ideologia e idiossincrasias próprias, e com um “algo mais” que vai além das interpretações. De fato, a eficácia da terapia analítica depende, em grande parte, de uma adequada atividade interpretativa e, em parte, de um “encontro” (match) peculiar entre você com seu paciente. Você, somente como pessoa real, mercê de sua ação e jeito sincero de ser, pode desconfirmar as impressões e expectativas patológicas que estão, de longa data, implantadas na mente do paciente, determinando o seu modo defensivo de se relacionar e conduzir. Como pessoa real, você também está sujeito a passar por crises existenciais (doenças, perdas, etc.) que podem influir marcantemente na sua eficácia analítica.

28. Procure minimizar esta interferência prejudicial, desenvolvendo uma capacidade de fazer uma dissociação útil do ego: isto é, reconheça e separe o seu lado analista do seu lado da pessoa humana que tem problemas, como todo mundo, sem deixar que uma dessas partes se confunda e interfira com a outra.

29. Ainda em relação à pessoa real que você é, cabe dizer da impossibilidade de separar a sua atividade interpretativa e a sua maneira verdadeira de ser. Por exemplo, uma mesma interpretação, igualmente certa, pode ser formulada de forma diferente por dois ou mais analistas da mesma competência e filiação escolástica, daí podendo resultar que a interpretação correta pode vir a ser eficaz, ou não. Para clarear melhor esta afirmativa, vou me socorrer de dois pensadores, um filósofo e um poeta. Bion, inspirado em Kant, filosofa poeticamente que, na situação analítica, “amor sem verdade não passa de paixão; verdade sem amor não é mais do que crueldade”. Por sua vez, Yeats, o poeta britânico, verseja uma frase singela, porém, de uma profundidade e beleza, que deveria constantemente inspirar a nossa atividade interpretativa. Eis o trecho que selecionei para a sensibilidade do meu caro leitor: “[…] pisa, mas pisa devagar, com cuidado, porque estás pisando nos meus sonhos mais queridos”.

30. Permita se envolver afetivamente com o seu paciente, porém – atenção – sem ficar envolvido com ele. Com outras palavras: não confunda ser uma pessoa “boa” com ser “bonzinho” (as frustrações inevitáveis e a colocação de limites que contrariam o paciente são indispensáveis para o seu crescimento mental). Igualmente não permita que se confundam ou se invertam os respectivos lugares e papéis que, respectivamente, pertencem a cada um do par analítico. Assim, evite ser demasiadamente provedor, conselheiro e diretivo com seus pacientes.

31. A propósito dessa tendência de o analista assumir uma posição de grandiosidade perante o seu paciente, cabe mencionar essa frase de Freud, pronunciada no seu último ano de vida:Por mais tentado que possa sentir-se o analista a se tomar o educador, o modelo e o ideal de seus pacientes, qualquer que seja o desejo que tenha de moldá-los à sua imagem, ele precisa lembrar-se de que esse não é o objetivo que procura atingir na análise, e até de que fracassará em sua tarefa entregando-se a essa tendência. Agindo assim, ele apenas repetiria o erro dos pais cuja influência sufocou a independência da criança e substituiria a antiga sujeição por uma nova.

32. Prefira seguir a direção que Antônio Machado sentencia neste seu bonito verso: “Caminhante, não há caminho; faz-se o caminho ao andar”. Assim, transposta para a situação analítica, essa mensagem poética encoraja-nos a caminharmos junto com o paciente, sem idéias, expectativas e projetos preconcebidos; antes disto, andarmos com ele por novas estradas, ao sabor da espontaneidade, até que o seu verdadeiro caminho na vida começa a se delinear e ganhar consistência e harmonia. O mesmo verso, fora da situação analítica propriamente dita, também ilumina que no lugar de transitar unicamente por caminhos analíticos com fronteiras bem-delimitadas, já bem-conhecidas, procure trilhar áreas de transição e intersecção entre as diversas ciências, as artes e o espírito. Procure, pois, fazer uma formação múltipla, não só no que se refere a um livre trânsito entre as diversas escolas dentro da psicanálise, mas também em uma aproximação dos campos da biologia, da física, da filosofia, da religião, da educação, da antropologia, da espiritualidade, da música e, naturalmente, da psicanálise.

33. Meu caro leitor: vou abrir para você uma discreta confidência. Nos primeiros anos de minha formação psicanalítica, nos meados da década de 60, igualmente aos demais institutos brasileiros, nosso referencial de aprendizagem teórico-técnico consistia em um pouco de ênfase em Freud (embora tenhamos feito todos os seminários curriculares preconizados pela IPA) e uma indubitável preferência pelo estudo dos autores da escola kleiniana. Todos os demais autores eram estudados muito superficialmente, para não dizer “quase nada”. Nossa excelente formação kleiniana possibilitou que trabalhássemos bem como psicanalistas. No entanto, com o correr dos anos, percebi que, na época, as supervisões coletivas e as apresentações de trabalhos clínicos (para promoção a membro associado ou efetivo) repetiam-se de uma forma monótona e monocórdica. Fazendo uma caricatura exagerada, cabe dizer que, em cada caso apresentado, só mudava o nome do paciente e o seu passado histórico, porquanto as considerações psicodinâmicas. sempre de fundamentação kleiniana, eram praticamente as mesmas. Quando, nos anos 70, comecei a redigir o meu trabalho para alcançar a condição de membro efetivo, percebi que eu estava incidindo em uma mesmice idêntica àquelas que, intimamente, tanto criticava. Lembrei-me da máxima que afirma que “cada um de nós descobre nos outros as mesmas falhas que os outros descobrem em nós”. Não mais tive dúvidas, estava me violentando porque a minha mente estava saturada, impregnada com as concepções kleinianas que auxiliavam o suficiente para a análise evoluir bem, mas deixava a função de analisar algo repetitiva e tediosa. Concordei comigo mesmo que deveria ter mais paciência e me proporcionar um novo tempo, de sorte que suspendi a feitura do trabalho que já estava adiantado e decretei para mim uma espécie de período sabático (durou dois anos), durante o qual, salvo alguma situação especial, raramente eu freqüentava a Sociedade e me atirei à leitura de autores, como Bion, Winnicott, Kohut, Lacan, Joyce MacDougall, outros autores franceses e psicólogos do ego, entre tantos e tantos. Fiquei com a sensação de que se revelava para mim um outro universo psicanalítico. Sofri significativas influências de muitos desses autores que, na época, em nosso meio, eram pouco conhecidos, em profundidade, porém confesso que foi com a obra de Bion que mais me identifiquei e a que mais me influenciou, e fez com que eu mudasse de forma substancial a minha forma de entender e trabalhar a prática psicanalítica cotidiana. Após dois anos, retomei a feitura do trabalho, em moldes muito distintos do original e que, pelo menos para mim, foi muito gratificante apresentar e debater com meus colegas da SPPA

34. Trouxe este exemplo pessoal, que talvez não seja o melhor ou sequer válido para outros, com o propósito de fazer o leitor refletir no fato de não ser necessário termos pressa exagerada na construção de nossa formação como psicanalistas; há momentos certos para tudo. Assim, meu jovem leitor, permito-me sugerir-lhe que você tenha sempre em mente a profunda sabedoria contida neste clássico trecho bíblico, do Eclesiastes (Velho Testamento, 3:11): “Existe um tempo para tudo […]; um tempo para procurar e um para encontrar (também cabe dizer: “para semear e para colher”); para ficar em silêncio e para falar; um tempo para amar e um para odiar; um tempo para a guerra e outro para a paz […]”.

35. Se possível, não fique confinado unicamente em seu consultório privado. A experiência que você está adquirindo e acumulando pode ser muito útil em organizações que representam finalidades sociais, como escolas, hospitais, centros comunitários, órgãos políticos, etc. No entanto, esteja preparado para a possibilidade de que nosso instrumento primacial- a verdade, com base psicanalítica – possa vir a ser rejeitada e sabotada pelas cúpulas diretivas e outras pessoas dos respectivos órgãos, que desde cedo não foram preparadas para amar as verdades; pelo contrário, sentem-se ameaçados porque eles foram ensinados a não confiar naqueles que querem propor outros vértices de percepção e manejo das verdades.

36. O tratamento analítico pode alcançar somente um setor restrito da população; no entanto, a compreensão psicanalítica pode, sim, ajudar a muita gente, em diversos campos, como, por exemplo, da medicina e demais ciências humanísticas, a educação escolar e do público em geral, as múltiplas áreas transdisciplinares (jurídica, literatura, etc.).

37. Pavimente o seu caminho para a aquisição de sabedoria, o que é muito diferente de uma acumulação de conhecimentos e erudição. A propósito, creio que cabe mencionar novamente a Bion quando ele afirma que “[…] é necessário muita ciência para fabricar uma bomba atômica, porém é preciso muito mais sabedoria para não usá-la como uma arma destrutiva contra a humanidade”.

38. Lembre-se que antes de você ser um médico, psicólogo, psiquiatra ou psicanalista, você é gente como a gente, um ser humano comum, sujeito às mesmas grandezas, fragilidades e pequenezas como qualquer outra pessoa. O reconhecimento deste fato pode ajudá-lo bastante a ser uma pessoa mais simples (é muitíssimo diferente de “simplória”), mais próximo e empático com o seu paciente.

39. Finalmente, não gostaria de concluir esta carta sem enfatizar a importância de você não ter pressa em amadurecer como psicoterapeuta analítico, prefira uma marcha mais lenta, porém consistente e progressiva, em meio a dúvidas, angústias, limitações, omissões e inevitáveis falhas (não custa reiterar que não existe o menor problema em cometermos erros, desde que tenhamos a capacidade de aprender com as experiências, as boas e, principalmente, aquelas em que cometemos equívocos e erros), no lugar de rapidamente considerar-se “pronto”. Se você tiver essa capacidade de paciência, ser-lhe-á muito útil para trabalhar com os seus pacientes, com vistas a esse mesmo objetivo de um, gradativo, desenvolvimento maduro.

40. Assim, para ilustrar o que disse, entendi incluir nesta carta uma mensagem intitulada “Amigos”, que considero altamente afetiva e tocante, que li e guardo o recorte como um bem precioso, embora não tenha conseguido descobrir o nome do autor. Para não mutilar o tom poético que emana dessa mensagem, resolvi transcrevê-la na íntegra. Lembre-se que essa fábula vale para você e para os pacientes que trata ou virá a tratar:Um dia, uma pequena abertura apareceu em um casulo; um homem sentou e observou a borboleta por várias horas, conforme ela se esforçava para fazer que seu corpo passasse através daquele pequeno buraco. Então pareceu que ela havia parado de fazer qualquer progresso. Parecia que ela tinha ido o mais longe que podia e não conseguia ir mais. Então o homem decidiu ajudar a borboleta: ele pegou uma tesoura e cortou o restante do casulo. A borboleta, então, saiu facilmente.Mas seu corpo estava murcho e era pequeno e tinha as asas amassadas.O homem continuou a observá-la porque ele esperava que, a qualquer momento, as asas dela se abrissem e esticassem para serem capazes de suportar o corpo que iria se afirmar a tempo.Nada aconteceu! Na verdade, a borboleta passou o resto de sua vida rastejando com um corpo murcho e asas encolhidas. Ela nunca foi capaz de voar. O que o homem, em sua gentileza e vontade de ajudar, não compreendia era que o casulo apertado e o esforço necessário à borboleta para passar através da pequena abertura era o momento pelo qual Deus fazia com que o fluido do corpo da borboleta fosse para as suas asas, de forma que ela estaria pronta para voar uma vez que estivesse livre do casulo. Algumas vezes, o esforço é justamente o que precisamos em nossa vida.Se Deus nos permitisse passar através de nossas vidas sem quaisquer obstáculos, ele nos deixaria aleijados. Nós não iríamos ser tão fortes como poderíamos ter sido. Nós nunca poderíamos voar.Eu pedi forças…e Deus deu-me dificuldades para me fazer forte. Eu pedi sabedoria…e Deus me deu problemas para resolver. Eu pedi prosperidade… e Deus me deu cérebro e músculos para trabalhar. Eu pedi coragem… e Deus me deu pessoas com problemas para ajudar. Eu pedi favores… e Deus me deu oportunidades.Eu não recebi nada do que pedi…mas eu recebi tudo que precisava.Meu prezado leitor, peço desculpas se me alonguei demasiado, ou se fui exagerado, ou equivocado em algumas observações. Guardo a esperança de que esta carta possa ter alguma valia prática para você. De qualquer forma, fui fiel a um forte desejo que me acometeu de escrevê-la para um novo amigo, e eu ficaria muito grato se você me devolver, com as suas opiniões, críticas e sugestões a respeito dela.

Despeço-me desejando-lhe boa sorte e sucesso na sua atividade de psicoterapeuta analítico e deixo o abraço carinhoso e agradecido pela sua atenção.Do amigo David E. Zimerman

O presente texto é um excerto do livro “Manual de Técnica Psicanalítica: uma re-visão”, Ed. Artmed, 2004, pág. 453-460.

1 comentário

  1. É um belíssimo presente. Não sou mais terapeuta psicanalista, pratico como coordenador de uma organização e de um movimento social, com povos e comunidades tradicionais, me deparo cotidianamente com “situações terapêuticas” e sempre tenho que estar atento a maieutica, de fato uma forma de aproximação que nos remete/propicia a uma relação franca, honesta em duplo sentido e uma amizade livre da necessidade de comando e controle.
    Muito grato

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