SONHO COM DAVID E. ZIMERMAN


Ontem sonhei que o grande psicanalista David Zimerman respondia à todas as minhas questões referentes à prática psicanalítica. Como estávamos em um boteco e bebemos muito, não pude recordar o sonho na íntegra. Mas aí vão algumas questões que ficaram em minha memória.
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1- Psicoterapia e psicanálise, qual a diferença?

A expressão psicoterapia é mais abrangente do que psicanálise, sendo que esta última é mais restrita e não deixa de ser uma das diversas formas de psicoterapia, se bem que mais profunda, sofrida, e pretensiosa entra todas elas. É uma tarefa difícil e até presunçosa estabelecer uma distinção nítida entre elas, por isso cito Wallerstein, 1989, p. 310: “A psicanálise propriamente dita e a psicoterapia psicanalítica, ao final de um espectro, são qualitativamente diferentes uma da outra, se bem que exista um terreno fronteiriço de casos entre elas. Uma comparação análoga pode realizar-se entre o fato de que o dia é diferente da noite mesmo quando existe crepúsculo, e o preto é diferente do branco, não obstante exista o cinza.”O problema da distinção entre as duas pode fica facilitado se seguirmos estritamente ao pé da letra os postulados técnicos recomendados por Freud relativos ao cumprimento das regras da livre associação, da neutralidade, da abstinência, do anonimato do analista, e das regras que presidem as interpretações centradas quase que exclusivamente no “aqui agora” da neurose transferencial. Ocorre que esta solução não é tão fácil, a começar pelo fato de que a própria conduta técnica de Freud, tal como esta expressa em seu historiais clínicos, diferia muito do que ele sustentava em seus clássicos trabalhos sobre a teoria e técnica, quase todos escritos nos anos de 1912 a 1915.(…)

Prossegue essa importante autora J. MacDougall (1991, p.73): “O grande diferenciador entre a psicoterapia e a psicanálise consistia no fato de que somente o aprofundamento possibilitado pelas peculiaridades desta ultima é que permitiria uma reconstrução do passado como explicação para o comportamento do presente do analisando. No entanto, esse aspecto na atualidade, embora conserve sua importância, já não é mais considerado um instrumento tão mágico e exclusivo da psicanálise. Muitos fatores concorrem, e que estão igualmente presentes na prática das terapias analíticas”(…)

Comumente, a psicoterapia é significada de forma depreciativa como não sendo mais que do que uma prestação de conforto, consolo, “tapinha nas costas”, palavras amáveis, etc., portanto, como algo muito fácil de ser feito, enquanto que, pelo menos, em meu entendimento, uma adequada psicoterapia de apoio de base psicanalítica não é nada disso, e ela exige um bom preparo do terapeuta, porquanto ele tem a difícil tarefa de discriminar e localizar a, muitas vezes oculta, “parte sadia e forte” do seu paciente, de reforçar os mecanismos de defesa do ego, de modo a propiciar condições para confrontar e enfrentar o seu lado “frágil e doente”, sem necessariamente ter de se aprofundar nas dinâmicas dos conflitos pulsionais inconscientes.

2- O divã é necessário?

Acho que em relação ao uso do divã numa análise standard: penso que já passou da época em que os analistas incluíam nas clausulas obrigatórias das necessárias combinações do “contrato analítico”, o compromisso e o paciente fazer análise deitado. Nesses casos há o risco de que o analista possa estar reforçando, desde o inicio um modelo de submissão e obediência por parte do analisando, quando na verdade, o nosso maior objetivo em uma analise não é a de modelarmos a pessoa “bem comportada” e de bons princípios (segundo critérios do analista); pelo contrario, o maior êxito analítico é aquele que consegue atingir a aquisição , por parte do paciente, de uma liberdade interna (de seus objetos opressores) e, por conseguinte, a obtenção de uma capacidade para viver a sua conduta exterior de uma forma livre. Em suma, penso que o divã não deve ser encarado como uma obrigação ou dever, mas sim que o fato de o paciente não deitar (ou, conforme as circunstancias, o ato de ele deitar-se) deve ser analisado o suficiente para representar uma importante conquista que o analisando esta obtendo, a mercê de uma livre decisão sua para usar o divã, mesmo que isso demande alguns meses ou anos.
3- E quanto às horas e número de seções?
O critério estabelecido de um número mínimo de quatro sessões para configurar uma “analise de verdade” é altamente relativo, tanto que nas épocas pioneiras eram seis sessões, depois permaneceu um longo tempo cinco sessões, na atualidade predomina a condição de quatro sessões, sendo que institutos de psicanálise altamente respeitados como da frança, alem de outros mais, adotaram a freqüência de três, inclusive nas analises didáticas oficiais
4- E sobre o perfil atual do paciente?
A clínica de hoje difere daquela de um século atrás. Quase não encontramos as clássicas neuroses puras (histéricas, fóbicas…) e, em contrapartida, surgiram e predominam as neuroses mistas assim como as “novas patologias” , dentre elas, tem crescido a demanda de pacientes psicóticos, borderline, psicossomatizadores, transtornos alimentares, drogadictos, perversões, transtornos de narcisistas da personalidade, com problemas de auto-estima e indefinição do sentimento de identidade. Baseado em minha experiência pessoal, atrevo-me a afirmar que, eventualmente, determinados pacientes que tem duas ou ate mesmo uma sessão semanal, podem estar em um verdadeiro processo psicanalítico, ou seja, estão fazendo verdadeiras mudanças psíquicas, enquanto alguns outros que cumprem todas as costumeiras combinações de uma analise standard podem não estar fazendo mais do que uma “psicoterapia deitada” durante quatro vezes por semana.
5- E sobre o perfil atual dos analistas?

Dentre os atributos indispensáveis para a pessoa do psicanalista devem ser destacadas aquelas que aludem a uma capacidade de empatia, continência, paciência, intuição, amor às verdades e a liberdade, respeito a autonomia do outro, capacidade para suportar frustrações e decepções, prazer da criação e, muito particularmente, a de possuir um talento especial para a pratica da ciência e arte psicanalítica. Destarte, pode acontecer a possibilidade de que um terapeuta com consistente formação analítica numa instituição não filiada diretamente ao IPA possa ser tão eficiente e com uma tão consolidada identidade de psicanalista como a de algum outro analista com uma satisfatória formação oficializada (…)

O que realmente importa é que o analista conhece seus alcances e possibilidades, assim como os limites e limitações, seus e da ciência psicanalítica, de modo que tenha uma clara idéia e segurança daquilo que Le faz, de como esta fazendo, e com qual propósito. Isso faz me lembrar de Winnicott, de quem contam que diante de uma que lhe fizeram acerca de se ele também praticava psicoterapia, o mestre teria respondido algo assim: “Eu sou um psicanalista, só sei fazer analise, independente do fato de que meu paciente vem cinco vezes por semana e deita no divã, ou de que se ele vem uma vez por semana e fala comigo dentado na minha frente”
6- Aonde me formar? Tem que ser nas sociedades vinculadas ao IPA necessariamente?

Deve ser levado em alta conta o fato de que o analista da atualidade também luta com dificuldades econômicas, já passou o tempo em que o simples fato de se ter uma titulação de psicanalista oficializada pela IPA, por si só, já se constituía em uma certeza de encaminhamentos de pacientes para analise e uma garantia de consultório cheio. É necessário considerar os fatos, já assinalados, de que existe um crescente e excessivo numero de psicanalistas, ao mesmo tempo em que uma generalizada crise econômica mundial aliada à uma grande oferta de métodos alternativos de tratamento, principalmente o da moderna psicofarmacologia. Vale à pena transcrever essa posição tomada dentro da própria IPA, por parte do renomado Charles Hanly (1995): “Menos e menos pacientes aceitam a análise clássica – quatro sessões por semana, no divã, por anos, e pagando cifra custosas. Muitos analistas – existem numerosas exceções – estão com consultórios esvaziados e poucas pessoas procuram analises didáticas em institutos psicanalíticos da IPA”. Penso que a conseqüência mais evidente disso é a de que as analises “puras” vão ficando cada vez mais para as pessoas das áreas “psi” que fazem alguma modalidade de formação psicanalítica. Enquanto isso cresce o numero de analistas que em seus consultórios privados fazem algum tipo de psicoterapia, ou seja, praticam terapia analítica fora das clássicas combinações oficiais. Já em 1980, Zimmermann (p.31) publica um trabalho no qual atesta que uma media de 60% doa analistas de todo mundo praticava de forma total ou parcial, a psicoterapia. Pelo menos nos Estados Unidos, o numero de analistas oficiais, que na atualidade pratica unicamente a psicoterapia, ultrapassa a cifra mencionada acima. Outra conseqüência preocupante dessa situação de crise consiste numa forte desilusão, falta de estimulo e desmotivação por parte de muitos analistas jovens. (…)

É fato bem evidente que de que proliferam instituições de ensino não ligadas oficialmente a IPA, as quais promovem uma “formação (psicanalítica) paralela”, que recomendam aos seus alunos uma analise pessoal e exigem supervisões sistemáticas e permanentes, alem dos indispensáveis seminários teóricos, técnicos e clínicos; que podem ser de uma qualidade muito boa, nivelados com os dos institutos oficiais. Assim, estes seminários são os mesmos que aqueles realizados obrigatoriamente nos institutos filiados à IPA, a bibliografia também é a mesma, e comumente tais institutos paralelos são criados, dirigidos e contam com a colaboração de experientes conceituados psicanalistas didatas, membros efetivos e associados pertencentes aos quadros das sociedades psicanalíticas oficiais.
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Este texto é uma ficção e todas as respostas foram extraídas, sem modificações, do livro “Fundamentos Psicanalíticos” de David E. Zimerman, Artmed editora 1999

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