INFECÇÃO CULTURAL: DOENÇA DANADA DE BOA!


Quase todos que conheço em Santa Rita do Passa Quatro reclamam de alguma forma da cidade. Até certo ponto, compartilho de algumas reclamações como a de não se ter quase nada que fazer. Para sair à noite, temos uma ou duas opções, que nem são lá grande coisa, e se você quer jantar, aonde vai? Pizzaria, é claro. Vai cansar de comer pizza.

 

Cinema? Teatro? Música? Nada disso temos aqui. E mesmo o tão falado turismo, que se aponta como a menina dos olhos para alguns, o que temos? Algumas placas na cidade? Uma pessoa de minha família veio a Santa Rita especialmente para ver o Museu Zequinha de Abreu, em um fim de semana, mas ele estava fechado.

 

 

Não quero listar aqui as qualidades desta cidade, tão pouco os defeitos e sei que algumas coisas estão sendo feita aqui. O que penso é que parece que em nossa cidade criou-se um ciclo vicioso: Na cidade não há publico para nada relacionado à arte, cultura etc., e por se pensar nisso não se produz nada; e por não se produzir nada não há publico consumidor para quase nada. Ciclo da mediocridade fechado.

 

Uma solução apontada por pessoas que entendem de cultura e movimentação social é a de se criar hábitos de consumo de cultura. O que significa isso?

 

Explico de forma hipotética: “João, um senhor de 75 anos, aposentado, casado com Maria, tem lembranças vivas de sua mocidade em que se divertiam nos bailes da cidade. Hoje, definha em casa, sem atividades, com a sua TV de 29 polegadas comprada a 12 prestações nas Casas Bahia. Fica sabendo que na sua cidade acontece uma vez por mês, um show na praça com chorinho e grupos de dança com muitos senhores como ele, vendinhas de quitutes e pessoas que levam seus cachorros para passear, num clima interiorano típico. João, num belo dia em que vence a inércia da idade, convence Maria a comparecer no tal Show de Chorinho. Os dois, tímidos de inicio, deslumbram-se com a movimentação dos dançarinos, percebem que muitos deles, ainda desajeitados, têm a sua idade. Algo muda. João pega a mão de Maria. Os dois dançam um pouco e nunca mais param de freqüentar o show na praça. Todo mês estão lá: Compram um algodão doce, duas cervejas e dançam, curtem um som legal… essa coisas de seres humanos, sabe?
Essa curta história não é nada irreal. Relato como esse pode ser apresentado por qualquer senhor que freqüenta esses encontros (refiro-me aos domingos no Museu do Café USP Ribeirão Preto).

 

 

Podemos colocar nessa historia um garoto de 20 anos, que adora tocar um instrumento, e passa a se interessar por flauta transversal. Ou um garoto que se encanta com a dança e procura se aperfeiçoar na arte, e criar um grupo de dança. Nesta curta história pude mostrar como um hábito de consumo de cultura pode praticamente “infectar” as pessoas a sua volta. Forma-se uma rede de pessoas que consomem cultura e muitos outros que vão passar a produzi-la ou reproduzi-la.

 

Fico pensando aqui: o que falta para criamos isso em Santa Rita? Como podemos fazer isso? Quantos Joãos e Marias morrerão infelizes e inutilizados pela mediocridade de uma era que nos incita a ficar calmos e passivos diante de uma tela, ou diante de uma ideologia barata de felicidade comprada? Por hora, fico pensando aqui.

 

 

 

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