A CIÊNCIA E A MUDANÇA DE MUNDOS


Chegando ao final de minha graduação em Ciências Biológicas, durante o processo de confecção de minha monografia, surgiu uma importante questão: “Como minha mãe, uma dedicada dona de casa, vai ler isto?”
Entre termos técnicos, gráficos, tabelas e tudo que um artigo científico tem, abandonei a idéia de, naquele momento, tornar a tarefa mais fácil à minha mãe. E de fato ela não pôde ler, mas mesmo assim, me parabenizou e ficou de certo modo orgulhosa por seu filho fazer parte, agora oficialmente, de um seleto grupo que adquire diploma universitário e dedica sua vida a pesquisa científica.
A vida no laboratório se constitui, a rotina se fixa e a produção de dados e conclusões se aprimora. Muito trabalho dentro de um pequeno espaço servindo a propósitos nem sempre tão claros para familiares e amigos não cientistas (o que resulta em brincadeiras infames nos almoços familiares do tipo: “Meu filho é cientista, ele maltrata ratos…”)
Há um tempo o homem vivia em torno de 30 anos. Acreditava-se que a terra era plana, e no final dela havia monstros que guardavam um abismo infinito. O sol girava em torno da terra e esta era centro de todo o universo. Deus tinha criado tudo, tendo como centro o nosso “planetinha” azul; e o homem era o máximo da perfeição que a natureza poderia conceber.
Atualmente é difícil encontrar pessoas que ainda acreditam em todas essas versões de explicação do mundo e a expectativa de vida do homem moderno aumentou muito de lá pra cá. Isso só foi possível, sem dúvida, graças a uma característica natural e sensacional do ser humano de se questionar sobre as mais variadas coisas que o cercam, e de bolar maneiras fantásticas de descobrir a verdade por trás de uma possível ilusão que nossos sentidos nos submetem.
A capacidade de fazer ciência constitui uma característica humana fundamental, que nos permitiu, entre outras coisas, criar remédios, edificar moradias e cidades, conhecer a lua. Este tipo de “produto científico”, aquele produto que surge diretamente do fazer cientifico é bem conhecido por boa parte da população e obtém muita atenção da mídia em detrimento de um “outro”: o simples saber, que não é coisa palpável, não se transforma imediatamente em bem de consumo ou quinquilharia eletrônica, ou fato jornalístico, é o saber por si só. Por um lado há o despejo de milhares de bens de consumo produtos diretos da ciência moderna e, por outro, a produção de um “Saber” que entope as prateleiras de bibliotecas fechadas, sem atingir a população diretamente. Pode-se então pensar num desenvolvimento nacional, produto direto da ciência em termos de bens de consumo (batedeiras, tocadores de musica digital, telefones televisores) ou em termo de “saber” (teorias e novos conhecimentos).
O tipo de saber produzido pela ciência, que afetaria o modo de vida e produziria um novo tipo de consciência, raramente atinge a população, por exemplo, uma teoria evolutiva importante dificilmente é entendida ou divulgada para todos. Há então que se difundir ciência e conhecimento, criar meios viáveis para o seu entendimento e não apenas “panfletar o conhecimento”, como se divulga uma festa ou evento.
De certa forma, a ciência moderna, embora mal difundida, conseguiu um status de oráculo ou selo de garantia para procedimentos, e passa a ditar regras e a criar estilos de vida. Temos um bom exemplo no uso de filtro solar, que passa a ser um programa obrigatório nos telejornais em épocas de verão. Temos também os termos: “alguns estudos mostram que…” ou “a ciência comprova que…” que enchem as bocas de especialistas e leigos, quando querem fazer valer alguma opinião ou observação; sendo que ciência na realidade, não necessariamente é definitiva sobre algum fenômeno ou processo. Chalmers (1973) nos diz que embora nunca se possa dizer legitimamente de uma teoria que ela é verdadeira, pode-se confiantemente dizer que ela é a melhor disponível, que é melhor do que qualquer coisa que veio antes.
Há de certo modo o processo inverso em que a ciência, em vez de ser entendida como processo falsificável, passou a ocupar um local de certa infalibilidade na mente humana, como se fosse uma garantia ou um dogma a se seguir. O problema disso é a aproximação da ciência à religião, quando a ciência passa a se tornar um ditame fixo para hábitos sociais e pensamentos, sendo que, ao contrário, ela é o significante mais profundo de mudança e revolução.
Voltando a minha mãe – que mesmo sem entender bem, me admira por ter seguido essa carreira misteriosa de cientista – a população em geral também não sabe bem porque, mas admira os cientistas e a sua ciência. Acredito que toda essa admiração seja válida, no entanto ela nos é dada pela metade; e quando inteira refletiria o verdadeiro desenvolvimento nacional que buscamos: a mudança efetiva de mundos e vidas.

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