PEDOFILIA E ESTUPRO: ACEITÁVEIS PELA IGREJA?


menina de 9 anos foi estuprada pelo padrasto de 26 anos,

O inicio de março deste ano, foi marcado por mais uma daquelas cenas bizarras que já estamos nos acostumando: pai estupra filha, filho mata pai etc.

Desta vez, uma menina de 9 anos foi estuprada pelo padrasto de 26 anos, e estava grávida de gêmeos, numa cidadezinha de 14 mil habitantes (Alagoinha, PE). A garota, além do drama que vivia e vive, estava subnutrida, e tinha altas chances de morrer no parto. O aborto foi logo considerado com opção viável.

Mas o drama e a situação extremamente alarmante, por si só, não foram suficientes para que Dom José Cardoso Sobrinho (foto), arcebispo de Olinda e Recife, não titubeasse em ameaçar todos envolvidos no procedimento de aborto. O Arcebispo obteve logo apoio do CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e do próprio Vaticano.

Dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife

As notícias correram o mundo. Pessoas, inclusive cristãs católicas, ficaram indignadas; a repercussão na mídia foi muito grande; até que a CNBB se posicionou novamente: Dom Geraldo Lyrio Rocha, presidente da CNBB, apareceu na noite de quinta-feira (12) no Jornal Nacional para dizer que o “arcebispo não excomungou ninguém”. O Vaticano também recuou. O monsenhor Rino Fisichella, presidente da Pontifícia Academia para a Vida, escreveu no L’Osservatore Romano, jornal do Vaticano, artigo afirmando que dom Sobrinho deveria ter preocupado-se com a menina, e não com a excomunhão. Dom Sobrinho ficou só.

Concordando ou não com a atitude tomada pelo Arcebispo, há que se colocar que a Igreja opera suas ações por meio de dogmas. Dogmas são leis imutáveis, não questionáveis: ou aceitamos ou não. Não há por onde tentarmos convencer qualquer instituição religiosa de mudar dogmas, pois fazendo isso, ela estaria se desautorizando em frente de milhões de fiéis do planeta terra.

Imaginem só: A igreja aceitar que o homem não é criatura divina e que a mulher não veio da costela de Adão e sim produtos da evolução das espécies, como está mais que provado pela ciência e o bom senso. Mas falar em bom senso também não adianta nada. As leis da igreja são imutáveis e ponto final. Se você não concordar com elas, que mude de crença ou se transforme em ateu, ou agnóstico.

O fato do Vaticano e CNBB terem recuado em suas posições iniciais mostra que a igreja não tem mais a mesma autoridade de antes, tem medo de perder fiéis, e no fundo sabe que tem feito besteiras ao longo da história. Todo ser humano tem fé. Alguns não acreditam em textos ditos sagrados, mas possuem uma fé inabalada e diversos símbolos, ações, memórias etc. Outros associam a fé à alguma das muitas instituições religiosas, que historicamente tem monopolizado essa importante característica humana.

A lamentável situação que a igreja se encontra diz respeito ao fato de que seus dogmas estão sendo postos em prova nos dias de hoje, e muitos cristãos, católicos e outros, estão começando a “pensar” em sua “fé”. Oras, mas o arcebispo excomunga médico, a mãe da menina… E o padrasto estuprador não? Isso já é pensar na fé.

A igreja tem se colocado de maneira tão retrógrada em certas questões (aborto, preservativos, separação etc.) que o mínimo de bom senso faz com que os fiéis comecem a pensar em que tipo de instituição estão envolvidos: uma instituição que tolera padrastos estupradores e pedófilos, e pune profissionais humanos que demonstram respeito total a vida e ao sofrimento humano?

Para a Igreja, a vida a ser salva na ocasião era apenas a vida do recém nascido, mas e a vida da menina, que estava em sérios riscos? Que tipo de exemplo a Igreja pretende dar, aceitando estupradores pedófilos? A vida tem de ser preservada e não dogmas incoerentes e obsoletos.

A responsabiliade fica com milhões de fiéis católicos que aceitam passivamente que crimes e atitudes horrendas sejam cometidos historicamente em nome de Deus, por um grupo de homens que dizem que suas leis são as leis Dele; e que, ironicamente, suas leis – que foram feitas sabidamente por homens – são as leis de Deus. Esse me parece o maior paradoxo.
A menina de 9 anos, estuprada desde os 6, e vítima de pedofilia está viva. Um pouco menos agora.

adcionado em 11/05/2009

PREDADORES PSÍQUICOS – POR RENATO MEZAN
Publicado no Caderno Mais, da Folha de São Paulo, em 22 de março de 2009

NA ÁUSTRIA, EM PERNAMBUCO OU EM SP, ABUSADORES SEXUAIS PARTILHAM DA MESMA IDENTIFICAÇÃO MALIGNA COM A MÃE E DA INDIFERENÇA PELO OUTRO

Os casos de pedofilia e incesto recentemente noticiados pela imprensa -a menina engravidada pelo padrasto em Alagoinha (PE), o austríaco que manteve presa sua filha por mais de 20 anos e com ela engendrou sete filhos/netos, a rede criminosa baseada em Catanduva (SP)- provocaram repulsa e horror em todos os que deles tomaram conhecimento.Como é possível que alguém pratique tais atos, perguntam-se as pessoas, e quais as consequências deles para as vítimas?
Mesmo que pedófilo e incestuoso não sejam sinônimos -o primeiro se interessa sexualmente por crianças, o segundo toma como objeto uma pessoa da mesma família ou clã (criança ou não), portanto proibido pela lei ou pelo costume-, não é raro que as duas condições coincidam num mesmo indivíduo, como no caso de Alagoinha, e em tantos outros que diariamente chegam às instituições de tutela da infância.Os motivos pelos quais um adulto -geralmente homem- aborda uma criança com o objetivo de se aproveitar dela são de diversas ordens.Balas e pipocasEm primeiro lugar, ela é mais fácil de atrair do que um parceiro adulto: balas, pipocas e a promessa de deixar jogar videogames bastaram para levar ao quarto do borracheiro de Catanduva os garotos que ele cobiçava.
Quem assim procede tem medo de que o adulto recuse seu convite; pode-se supor que seja acometido de ansiedade em relação ao seu desempenho ou que suas fantasias de castração sejam particularmente intensas.Em segundo lugar, o “predador psíquico” -termo que tomo emprestado ao antropólogo Boris Cyrulnik- tem características que o singularizam entre as várias classes de perversos.
A principal delas é uma identificação maligna com a mãe, diferente da que desemboca numa posição homossexual “normal” ou da que -caso venha a fazer parte da porção sublimada da libido- resulta num interesse pedagógico, numa atitude maternal e devotada para com os amigos etc.O que norteia o impulso sexual do pedófilo é a combinação dessa identificação com um ódio imenso pela criança que ele mesmo foi -“meu objeto deve sofrer ainda mais do que eu sofri”- e com um completo desinteresse pelos sentimentos do outro, que leva o indivíduo a não se incomodar com as consequências que seus atos possam acarretar para a criança.Quer esta tenha sido “apenas” bolinada, induzida a praticar felação ou estuprada, tais consequências são de extrema gravidade.O abusador sexual busca muitas vezes uma revanche contra violências de que ele próprio foi vítima na infância (é a justificativa do austríaco Josef Fritzl para o que fez com a filha) e se aproveita do fato de que as crianças são efetivamente dotadas de sexualidade para as seduzir.Mas atenção: a sexualidade infantil não se confunde com a adulta, e certamente não faz parte dela o intento de servir de meio para prazeres dos quais não tem noção.Esse ponto é crucial.
Todos sabemos que as crianças se interessam pelo que acontece no quarto dos pais e, no contexto do complexo de Édipo, desejam inconscientemente ocupar o lugar de um dos cônjuges.”Pessoas grandes”Sua imaturidade, porém, e o fato de desconhecerem muito do que se refere à vida sexual das “pessoas grandes” as fazem inventar o que Freud chamava de “teorias sexuais infantis”.Brincadeiras de médico, de “gato mia” e outras semelhantes expressam a curiosidade natural sobre o corpo, sobre a diferença entre meninos e meninas, sobre como se fazem bebês -mas são parte do que Sándor Ferenczi [1873-1933] denominou “linguagem da ternura”.
Já o adulto -perverso ou normal- opera na “linguagem da paixão”, ou seja, num registro que confere sentido bem diverso à excitação, às fantasias e aos atos eróticos.A “confusão de línguas” da qual fala o psicanalista húngaro nasce de que o adulto não controla seus impulsos e excede os limites que a cultura impõe na esfera sexual.Como afirma com razão Renata Cromberg, não se podem confundir “carinhos de pai” -beijos, abraços, afagos normais e desejáveis na relação pai-filha- com “carinhos de homem”: os mesmos gestos, porém realizados com o intuito de proporcionar prazer sexual para si, e nunca para a criança.Quando isso acontece, esta se vê enredada numa armadilha fatal: sente-se culpada por suas fantasias incestuosas (que, repito, fazem parte do desenvolvimento normal) e chocada pela maneira como elas acabaram por se realizar.A perplexidade se soma à vergonha e ao trauma de se ver traída por alguém em quem confiava; os efeitos na mente infantil são devastadores, e a eles se somam muitas vezes vestígios corporais, da irritabilidade ou ferimentos nos genitais à gravidez.A situação é frequentemente complicada pelo medo de contar o que ocorreu ou, pior ainda, pela incredulidade com que o relato é recebido.
Mães se recusam a acreditar que o homem que amam possa ter cometido “aquilo” ou são coniventes (alguém duvida de que a mulher de Fritzl sabia -ou pelo menos suspeitava- do que estava acontecendo naquele porão?); autoridades (como a responsável pela delegacia da Mulher de Catanduva) não dão seguimento à investigação; e o silêncio contribui para agravar a confusão e a dor.
Diante da incompreensão dos adultos, a criança vítima de abuso sexual aciona mecanismos de defesa violentíssimos, que acabam por aumentar ainda mais o seu sofrimento: identificação com o agressor, entrada numa posição masoquista, cisão da parte da sua mente que abriga as lembranças do fato e outros mais.Pode se tornar abúlica ou muito agressiva, perder a capacidade de sonhar ou reviver a cena em pesadelos, ser to- mada por sentimentos de perseguição, pela culpa de ter “induzido” o ato ou pela imagem obsedante do agressor. Este, porém, pouco se importa com tais consequências: como sua personalidade é de tipo narcisista, a desumanização do outro não lhe provoca emoção nenhuma.Contudo, por trás da fachada triunfante, nota-se que esse narcisismo é muito frágil: recobre precariamente um grande vazio e uma angústia atroz quanto à própria identidade.Compreende-se que o perverso -e particularmente o pedófilo/incestuoso- busque na sexualidade um lenitivo para a incerteza sobre quem é e sobre o que pode (“a pedofilia é a perversão dos fracos e impotentes”, diz Freud) e um meio de desviar sobre um ser indefeso o ódio e a hostilidade contra seus objetos internos.O entendimento sobre como funciona a personalidade do agressor, porém, não diminui a gravidade dos atos que pratica nem a dor imensa que inflige à sua vítima.O tema do abuso sexual é complexo, e é evidente que estas breves observações não o podem esgotar. A informação adequada é essencial para quem lida com os desastres que ele provoca.
Por isso, gostaria de concluir este artigo recomendando a juízes, médicos, promotores, assistentes sociais, psicólogos -e também aos familiares das vítimas- a leitura de quatro livros nos quais me baseei para o redigir: “Cena Incestuosa”, de Renata Cromberg; “Perversão”, de Flávio Carvalho Ferraz; “Psicopatia”, de Sidnei Kiyoshi Shine; e “Narcisismo e Vínculos”, de Lucía Barbero Fuks, este uma coletânea na qual figuram vários trabalhos sobre o assunto [todos publicados pela ed. Casa do Psicólogo].
Lembremos o dito de Freud: “Primum non nocere” -antes de mais nada, não prejudicar quem está ferido!
*RENATO MEZAN é psicanalista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de SP. Escreve na seção “Autores”, do Mais! .
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3 comentários

  1. Duas coisas precisam ser diferenciadas : Deus e Igreja.A Igreja, por excelência, está morta e esqueceram de enterrar, na verdade vivem tentando fazê-la de viva.E que autoridade tem um padre ou bispo, ou papa?Que estereótipo babaca e infantil é esse de : “Voou te excomungarrr ho hou hou”… Parece uma fantasia saída de filme de terror de 3º categoria ;;;

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  2. o que fazer se uma mae estiver fazendo sexo xom o filho menor de idade e se isso aconter na casa de algum de nos que providencias devemos tomar antes defazer qualquer besteira e puxa cadeia, por violencia. se uma mae faz isso que cadeia ela pega, como denunciar aonde denuncia e qual a lei que se deve aplicar nesse caso, eu pergunto no mundo conturbado hoje em dia vivemos numa cadeia mesmo não podemos sair muito a noite de dia somente ocupaçoes e se isso tiver acointecendo o que devemos fazer e quem vai preso ou não da em nada (pizza)

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