MÚSICA E EVOLUÇÃO: UMA BREVE RELEITURA CIENTÍFICA


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Flautas de osso e de marfim com cerca de 35 mil anos, na Europa da Idade do Gelo (Foto: H. Jensen/Universidade de Tübingen)

É sustentável a idéia de que em música, a alegria e a tristeza estejam associadas a duas propriedades estruturais: andamento (o número de batidas por minuto) e o modo (a organização específica de intervalos construídos sobre uma escala usada para definir o tom de uma música). Mais especificamente, andamentos rápidos tendem a evocar músicas alegres e andamentos lentos tendem a evocar músicas tristes. Similarmente, o modo maior está associado à alegria e o modo menor está associado à tristeza (Dalla Bella et. al., 2001). Além disso, o modo maior, de acordo com a hierarquia harmônica ocidental, é tido como sendo mais consonante de que o modo menor (Peretz & Gagnon, 2003).

Estudos ligando musica e emoção tem primeiramente focado suas atenções nas emoções dos ouvintes perante músicas de suas próprias culturas. Essa sensibilidade pode refletir o processo de aquisição de cultura e adaptação às convenções de um sistema cultural tonal próprio. No entanto, isso pode também refletir as relações às dimensões psicofísicas do som que são independentes da experiência musical. Uma maneira de se estudar a percepção da musica é proposto de modo a considerar a emoção como uma combinação de fatores culturais e universais compartilhados por toda espécie humana (Balkwill & Thompson, 1999). Nesse estudo, os autores concluíram que ouvintes são sensíveis à emoção expressa musicalmente mesmo em sistemas tonais não familiares.

A música é aparentemente universal, sendo encontrada em toda cultura humana conhecida, estando incorporada em uma vasta gama de eventos culturais incluindo casamentos, funerais, serviços religiosos, eventos de dança e esporte. Apesar de possuir papel central na cultura humana, as origens e funções adaptativas da música continuam misteriosas (Hauser & McDermott, 2003).

Culturas diferentes possuem tradições musicais diferentes que, em muitos casos, se desenvolveram independentes umas das outras, e as características comuns entre elas fornecem evidências de limites inatos da espécie (Hauser & McDermott, 2003). O que nos sugere que, mesmo em diferentes culturas, há características universais da música (escalas, canções de ninar e instrumentos musicais antigos) que refletem adaptações de estruturas cerebrais compartilhadas pela espécie humana.

A apreciação musical, similarmente à compreensão da linguagem, parece ser o produto de uma organização cerebral especifica o que dá suporte à existência de uma rede neural músico-especifica. Algumas condições patológicas que isolam a habilidade musical do resto do sistema cognitivo dão suporte a essa idéia. Acidentes vasculares, danos traumáticos e anomalias cerebrais congênitas levam a desordens seletivas do processamento musical. A implicação da existência de tal processo especial cortical é que o cérebro humano parece ser também estruturado cuidadosamente para a música (Peretz, 2002).

No entanto, Pinker (2002), referindo-se a artes humanas em geral, diz que a arte é um subproduto de outras três adaptações: a ânsia por status, o prazer estético de vivenciar objetos e ambientes adaptativos e a habilidade de elaborar artefatos para atingir os fins desejados. Desta perspectiva, a arte é uma tecnologia do prazer, como as drogas, o erotismo e a culinária refinada – um modo de purificar e concentrar estímulos prazerosos e enviá-los aos nossos sentidos. Pinker (1997) ainda nos esclarece que a música não é uma adaptação e sim uma conseqüência das propriedades naturais do sistema auditivo que é envolvido em outros propósitos.

A música não é comunicativa no sentido de compartilhar informação. Ela relaciona-se ao compartilhamento de sentimentos e experiências e na regulação do comportamento social. Em termos de sua prevalência e impacto, a música parece muito mais uma necessidade do que um “coquetel prazeroso” previsto por Pinker (Trehub, 2003).

A partir desta releitura, podemos começar a imaginar a razão pela qual a música, e as artes em geral, são tão valorizadas no mundo. Seria então a música (1) uma expressão direta de uma rede cerebral específica o que lhe daria o status de uma manifestação artística inata e até adaptativa? Ou (2) a música consiste em um acidente, um subproduto de outros sistemas cerebrais, nos quais a emoção pega carona?

Referências:
DALLA BELLA, S. et Al. Development of the Happy-Sad Distinction in Music Appreciation – Does tempo emerge earlier than mode? Annals of New York Academy of Sciences. n.930, p.436-438, 2001.
PERETZ I.; GAGNON L. Mode and tempo relative to “happy-sad” judgements in equitone melodies. Cognition and Emotion, v. 17, n.1, p.25-40, 2003.
BALKWILL, L.L., THOMPSON, W.F. (1999) A cross-cultural investigation of the perception of emotion in music: Psychophysical and cultural cues. Music Perception. 17 (1): 43-64.
HAUSER, M.D., MCDERMOTT, J. (2003) The evolution of the music faculty: a comparative perspective. Nature Neuroscience, 6 (7): 663-668. Jul. 2003
PERETZ, I. (2002). Brain specialized for music. The Neuroscientist. 4(8): 374-382.
PINKER, S. (1997) Como a mente funciona. 2° Ed. Tradução Laura Pereira Motta. Companhia das Letras. São Paulo. 2004.
PINKER, S. (2002) Tábula Rasa: a negação contemporânea da natureza humana. 1º Ed. Tradução: Laura Pereira Motta. Companhia da Letras. São Paulo. 2004.
TREHUB, S. E. (2003). The developmental origins of musicality. Nature Neuroscience. 7(6):669-673.
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2 comentários

  1. Fala Luís….! escolheu bem o tema hein! nao preciso nem falar que o assunto é maravilhoso… é redundancia…..rs
    Em relação à sua última pergunta no artigo, eu acho que a música vai além… A música é anterior à própria Vida. Existem vestígios de estudos místicos que dizem que o próprio som deu origem ao universo.

    Queria ler toda a bibliografia que vc colocou em baixo… rsrs
    Tenho dois livros para te indicar sobre música que acho interessantes:
    – O Autoconhecimento através da Música ( Peter Michael Hamel )
    – Alucinações Musicais (Oliver Sacks)

    Abrs

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