TÁ DE MINISSAIA? ESTUPRA MAS NÃO MATA, ENTÃO…


Geisy e o vestido rosa

“O estupro é, para essas turbas, o grande remédio: punitivo e corretivo. Como assim? Simples: uma mulher se aventura a desejar? Ela tem a impudência de “querer”? Pois vamos lhe lembrar que sexo, para ela, deve permanecer um sofrimento imposto, uma violência sofrida, nunca uma iniciativa ou um prazer”. (Contardo Calligaris, Folha de São Paulo)

Mary Quant, (Kent, 11 de fevereiro de 1934) foi uma estilista britânica, na década de 60, responsável pela criação da minissaia. Na juventude, Mary Quant criava suas roupas, e, aos poucos, decidiu vender as peças também, pois achava a moda “terrivelmente feia”. Anos depois, com o marido, abriu a loja Bazaar, na famosa King’s Road, em Londres. Criou um diminuto pedaço de pano que mudou o guarda-roupa feminino: a minissaia. As saias de 30 cm de comprimento eram usadas com camisetas justas e botas altas. Em poucos anos, Mary Quant abriu 150 filiais na Inglaterra, 320 nos EUA e milhares de pontos de venda no mundo todo. A butique Bazaar se tornou o símbolo de vanguarda dos anos 60 e 70. Em 1966, a rainha Elizabeth II a condecorou com a Ordem do Império Britânico, prêmio que ela recebeu vestindo mais uma de suas criações. Em 1994, aos 60 anos, Mary Quant lançou uma coleção de acessórios e de cosméticos. “É para que ninguém me esqueça”, disse a estilista, ainda adepta de minissaias. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Mary_Quant)

Enquanto isso no Brasil, a estudante do primeiro ano de turismo Geysi Villa Nova Arruda foi expulsa da UNIBAN (Universidade Bandeirante) por “flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade”, conforme comunicado que a escola publicou em jornais de São Paulo. (veja uma cobertura primorosa do caso em http://e-paulopes.blogspot.comhttp://botecosujo.com/).

O caso ressoou na mídia internacional (www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u649611.shtml) que colocou o caso como um paradoxo em um país em que as mulheres vão à praia seminuas e, durante o carnaval, a quase completa nudez é permitida. Claro que é preciso ter bom senso e a própria Geisy admitiu que errou em ir a faculdade com “aquele vestido”. O que me chamou atenção foram três coisas: (1) A aparente inocência de Geisy; (2) a brutalidade dos alunos e (3) a estupidez da coordenação da UNIBAN.

(1)    Inocência

É muito comum vermos crianças bem pequenas completamente “genitalizadas”. Não utilizo o termo “sexualizadas” porque a manifestação da sexualidade infantil é inquestionável, pelo menos na psicanálise. Desde muito cedo mamães vestem suas filhas com minissaias, sandálias de salto alto e já ensinam os princípios básicos da maquiagem, promovendo precocemente talvez a desenvolvimento de características atrativas sexuais em meninas, em criancinhas. Ora, vemos então nas ruas, “mini-mulheres” de 5 anos desfilando de salto alto e maquiadas como se fossem propriamente mulheres. A inocência de Geisy nasce neste momento; em um momento em que utiliza-se vestimentas e acessórios com certo poder de sedução sem ao menos perceber a finalidade disso. Certamente, quem veste uma minissaia sabe de antemão que irá atrair olhares sedentos masculinos (e talvez invejosos femininos). O fato é que Geisy, como muita gente que conheço, diz: “Me visto com roupas que me fazem bem e não me importo cm o que os outros pensam…” Utilizamos as vestimentas para chamar atenção, sim; e para seduzir e passar mensagens, sim. Prova disso são algumas culturas humanas que simplesmente cobrem as mulheres com panos longos para indefinir seus corpos e contornos (a burca, que cobre totalmente o corpo inclusive os olhos). A mensagem cultural disso é: As mulheres serão cobertas para não existir, em nenhuma hipótese, a tentação do sexo que é despertada pelos contornos dos quadris, movimento do corpo e olhos (o xador é outra vestimenta típica menos radical que cobre todo o corpo exceto os olhos). Portanto, a inocente Geisy precisaria entender que não se vai de terno e gravata na praia, nem nua na escola. Estou exagerando para ilustrara idéia de que precisamos aprender a distinguir as coisas e atribuir-lhes o devido sentido e valor social, que variam de cultura pra cultura, de momento em momento.

(2)    Brutalidade

Um coro de centenas de vozes clamava (“Pu-ta, pu-ta…”), enquanto Geisy era escoltada pela policia militar nos corredores da UNIBAN (veja o video no Youtube). Talvez se a policia não tivesse interferido Geisy teria sido agredida e linchada, como vemos em brigas e estádios de futebol, onde cada elemento de um grupo se dissolve na massa e passa a agir conforme outras regras; em que vale, por exemplo, dar uma paulada na cabeça de outra pessoa.

A palavra escolhida foi “Puta” (palavra que designa, ao mesmo tempo, a profissional do sexo ou mulher que gosta de sexo). Estranho imaginar uma nação que cultua o corpo e consome tanta pornografia (o Brasil é o primeiro no mundo em cirurgias puramente estéticas e um dos principais consumidores de pornografia online) produzindo jovens tão retrógrados e agressivos quando o assunto é sexo. O que estes jovens defendiam? O “ambiente escolar” como nos diz a carta da direção da UNIBAN? Creio que estavam impulsionados pela mesma força que impulsionava os inquisidores na idade média, ou seja, uma ignorância profunda relativa ao mundo, às culturas e, consequentemente, às diferenças entre seres humanos. E o pior de tudo: A instituição apoiou e aprovou o comportamento destes “jovens inquisidores”, talvez porque financeiramente é melhor um aluno expulso do que centenas deles. A UNIBAN oferece ensino de qualidade duvidosa para as classes baixas e é uma das maiores instituições privadas de ensino do país.

(3)    Estupidez

A atitude tomada de expulsar Geisy foi tomada arbitrariamente pelo reitor da UNIBAN, colocando o conselho universitário (órgão que toma as decisões de maneira mais ou menos democrática na universidade e que realmente funciona em universidades sérias) numa posição acessória e dispensável. A sociedade se mobilizou de diversas formas e a decisão foi revogada, nos mostrando a “seriedade” da tal UNIBAN. É o ensino brasileiro mais uma vez dando mostras do tipo de futuro que teremos, e do tipo de cultura que estamos criando – de intolerância, obscurantismo e violência.

Acho que se não fossem os celulares com câmeras e a facilidade de se colocar um vídeo na internet, Geisy teria sido mais uma vitima calada da violência tupiniquim barata, que coloca as mulheres como devassas e “endemoniadas”. O culto ao corpo e a beleza padronizada têm seu preço, e geralmente as mulheres e crianças é que pagam. O reitor da UNIBAN, conservador e ausente dos assuntos acadêmicas da universidade, já tentou se meter em política… vice de Paulo Maluf em 2002. Pasmem, por favor.

Anúncios

1 comentário

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s