VOCE É O QUE VOCE É, OU O QUE VOCE FOI?


O histérico sofre de reminiscências” (Sigmund Freud[bb], 1909, Obras Psicológicas)
“Sugere-se que a função adaptativa da reconsolidação da memória é de permitir que velhas memórias sejam atualizadas a cada vez que elas são acessadas” (Joseph LeDoux e colegas, 2009, Nature)

Começa um ano novo e com ele aquela velha vontade de mudar certas coisas: limpar o quarto, ser tolerante, ir à academia, sem um bom pai, um bom filho e por ai vai. Mas o que todos sabemos é que mudar as coisas, deixar pra traz velhos hábitos e manias é coisa difícil de fazer.

Nosso cérebro é uma maquina maravilhosa, com funções e funcionamento ainda relativamente obscuros para a ciência. Uma das características dele é que conseguimos “congelar realidades” e mantê-las por um grande tempo vivas dentro de nós, como se fosse uma máquina do tempo. Quase tudo que fazemos acabamos aprendendo e “congelando”, por exemplo, o modo com que nos relacionamos com os outros e com nós mesmos, de modo que não precebemos muito bem que estamos repondendo à um procedimento pré-programado, em um tempo anterior a ação.

A aprendizagem é um fato: conseguimos traçar em nossa mente um caminho mais prático e fácil para a realização de certas tarefas (dirigir um carro, tratar a nossa mãe, tratar o nosso melhor amigo ou nosso pior inimigo), mas o interessante disso é que ao mesmo tempo em que conseguimos desse modo compor uma história pessoal com fatos, imagens de infância e adolescência, amores, brigas e conquistas, também nos escravizamos em certos esquemas fixos de comportamento, sentimentos e pensamentos que dificilmente nos deixam em paz.

Um exemplo bem prático, embora muito simplificado, é o ato de dirigir um carro. No início todos os seus atos, pisar na embreagem, acelerador, trocar de marcha, prestar atenção nas ruas, eram lentos e demorados, de modo que você precisava pensar em todos eles antes de realizá-los. Depois de algum tempo, todos os movimentos se tornaram mais rápidos e precisos, e hoje você dirige comendo um bolo, falando ao celular e pensando no que vai comer hoje à noite. Dirigir se torna quase automático. Isso é maravilhoso, nos traz muitos benefícios e constitui uma das fortes características humanas, mas é também a pior desgraça.

Nesse esquema simples do ato de dirigir um carro: experimente “desaprender” a dirigir? A frase soa absurda, conseguimos aprender as coisas, mas “desaprender” é coisa impossível. Temos controle do ato de aprender, mas quanto ao “ato de desaprender” deixamos ao esquecimento que se dá de forma automática ao longo do tempo, ou simplesmente não ocorre.

Veja o drama humano: Somos capazes de aprender e compreender o mundo em nossa volta, mas somos incitados a fixar realidades em nossa mente, o que perturba bastante, e repetir esquemas defasados e nem sempre úteis. Desse modo você pode reagir a uma perda de emprego do mesmo modo que reagiu quando perdeu sua bicicleta quando tinha 6 anos de idade. Pode tratar sua mulher do mesmo modo que tratava sua mãe, quando ela esquecia sua mamadeira.

Isso causa sofrimento. A psicanálise[bb] vai estudar esses fenômenos sob um prisma bastante delicado (deixando de lado os aspectos cognitivos, de pensamento e esquemas de aprendizagem) e vai colocar o homem como portador de um cérebro que funciona como uma maquina de simbolizar experiências e entrelaçá-las de modo dinâmico e inconsciente.

3 comentários

  1. Olá Nando, muito interessante as ideias, e muito boa sua exposição de pensamento sobre como repetimos certos padrões na vida, ainda que em situações as mais distintas. Mas eu te pergunto, por curisidade e também por ser uma pergunta que sempre fiz para mim mesmo, tanto quando fiz análise certo tempo da vida, como também quando fazia o curso de formação em psicanálise: O fato de analisarmos – e até mesmo, porque não dizer, ‘descobrirmos’ – junto ao analista certas repitações, enfim, e “coisas” inconscientes que nos passam a ser, portanto, conscientes, significa que vamos conseguir mudar porque agora já consciente é uma determinada “coisa” (talvez possamos nos controlar e prever quando se dará certo tipo de repetição, patológica ou não), ou o fato de sabermos e de nos analisarmos não nos traz essa capacidade de desaprendermos essas tais “coisas”? Coloquei a palavra ‘coisa’ entre áspas apenas pra tentar dar um sentido para a pergunta, mas sem pretensão alguma, só porque não encontrei outra palavra no momento. Abraço, até mais.

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    1. Sua dúvida é um mistério da psicanálise ao meu ver, que seria: De que forma se dá a terapeutica na psicanálise? Ou: Como o sujeito melhora em algum aspecto?
      Acho que por repetição verbal de cenas, ou seja, reativação de memórias, o sujeito (na verdade a dupla) acaba conseguindo retirar alguma tendência à repetiçao ou compulsividade do esquema comportamental. Se o esquema se torna consciente eu não sei, porque pode ser que o trauma que gera o conflito em questão esteja em camadas inacessiveis mesmo, e pelo efeito de rompimento de campo, retira a tendência à repetição, desestabiliza o esquema neurótico. Bem simplificadamente, o campo sao as memórias ligadas, os traumas ligados em rede… rompe-se um certo campo quando ocorre movimentaçao de memorias ligadas entre si, por meio da narrativa, ou melhor, da trasferencia.
      Assunto complexo.

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