A PATOLOGIZAÇÃO DA VIDA


os remédios não dão sentidos para a vida

Muitos pais se desesperam ao perceber que seus filhos são quietos, tímidos e que parecem infelizes. Outros se desesperam também porque seus filhos são desatenciosos, rápidos demais e não conseguem se concentrar. Como é pratica constante nos dias atuais, leva-se o garoto ao médico que, muitas vezes sem necessidade, prescreve remédios, após uma entrevista breve de alguns minutos. O médico neste caso exerce uma função muito desagradável, porque de um lado há os pais desesperados confiando a vida do filho ao médico, respondendo à uma cultura que diz que os médicos podem e devem “salvar vidas”, semelhante à um deus na terra. E por outro lado, há a tendência natural do médico prescrever um remédio, que está associado à cura e cuja administração, sobretudo na psiquiatria, não é sempre tão eficaz.

Muitas vezes o adolescente que lhe dá um trabalhão em casa ou muitas preocupações apenas está… adolescente. Não está doente. A “patologização” da vida (ou seja, transformar uma característica humana em doença ou desordem) é pratica muito comum na ciência, sobretudo para que se possa estudar melhor tal aspecto. O problema é que se define neste momento o que é normal e o que não é, e isso em termos sociais é perigoso porque se uniformiza comportamentos de populações inteiras em função de diagnósticos médicos, fazendo surgir uma sociedade permanentemente assustada com doenças e muito medrosa. Isso é ótimo para os consultórios médicos e laboratórios de remédios, mas tenho cá minhas duvidas se é bom para nós, pessoas comuns.

Sou completamente favorável a administração de remédios e considero a psiquiatria uma das profissões mais nobres e difíceis. Mas, a indicação de remédios segue critérios de diagnósticos definidos pela Associação Psiquiátrica Americana (APA) que nem sempre acerta. No famoso Congresso da Associação Psiquiátrica Americana de 1964, quando iria debater se na próxima organização de critérios diagnósticos a homossexualidade permaneceria como doença, o Congresso Psiquiátrico é invadido pela sociedade civil. Vêm representantes dos grupos das liberdades democráticas, Tradição Família e Propriedade, imprensa, igrejas, jornais, enfim, toda a mídia, colocando em questão em que medida os psiquiatras têm mais autoridade para falar do comportamento homossexual como patológico do que o resto da comunidade.

A doença de hoje, pode ser a virtude de amanhã, isso é fato. Outro fato é que se você se queixar para um psiquiatra que está triste, muito provavelmente ele lhe dará um antidepressivo e um ansiolítico (calmante), contrariando até mesmo os critérios diagnósticos que regem sua profissão. Claro que existem bons profissionais, mas é sempre bom e recomendável nesses casos de uma “desordem mental”, a procura de mais de uma opinião, de um médico e de outros profissionais (psicanalistas, psicólogos e psicoterapeutas)

2 comentários

  1. Então Nando, é notável que desde a transição da era medieval para a moderna, há de modo geral a busca pela ‘resposta rápida’ às “coisas”. Nos tornamos objetos de nós mesmos, ou máquinas que, seja lá em qual parte do corpo tenha “desfunções”, “funcionalizamos” o “objeto”…Consertamos, ou tiramos fora. Ou como você diz, uma “desordem mental”, tomamos algo que nos dope, a fim, não de alcançar a “ordem mental”, mas mais no sentido de ignorar aquilo que ocorre (quando ocorre!) pois é complicado demais tentar buscar a raíz do ‘problema’ na ‘máquina-corporal’. Quando você citou sobre uma conferência etc, que comunidades invadiram, lembrei de um outro episódio que, cientistas tiveram contato (através de observação) com índios da região do amazonas (como se isso dissesse de onde eles eram.rs), e coletaram ‘plantas medicinais’. A partir delas desenvolveram outros tipos de medicamentos para os mais variados males (até para os inventados), e quando de um congresso desse tipo, tribos indígenas invadiram o local requerendo os direitos autorais pelas novas descobertas (não sei se se trata do mesmo evento, enfim). É a ciência (do místico, do senso-comum), contra a ciência dos medicamentos vendáveis, lucrativos, tecnologicamente “mais avançados”. Sabemos qual vence essa luta… E por falar em adolescencia, os índios, sabiamente, não compartilham disso. No mais, têm seus rituais de passagem, de uma semana no máximo, e eis um índio adulto. Adolescencia, desse ponto de vista, já é – em si – um produto.

    Abraço, excelente texto.

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    1. SEM DÚVIDA, MUITO BOA A EXPLICAÇÃO SOBRE A PATOLOGIZAÇÃO, ASSUNTO ESTE MUITO PERTINENTE NO MOMENTO ATUL.

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