O não de Pasolini


por Rafael Ruggiero

“Todos os imbecis da burguesia, que pronunciam, sem cessar, as palavras, imoral, imoralidade e moralidade na arte, bem como outros disparates semelhantes, me trazem à memória Louise Villedieu, puta de cinco francos. Um dia, quando me acompanhava ao Louvre, onde nunca estivera antes, ela começou a corar, a esconder o rosto e, puxando-me a todo instante a manga, perguntava-me, perante as numerosas estátuas e quadros imortais, como era possível exibirem-se publicamente tais indecências”.

 

Era em São José do Rio Preto e se não me engano era o ano de 2004 e fiquei positivamente surpreso quando folheando o caderno cultural do jornal local encontrei algo sobre um festival de cinema italiano. O fato era bastante inusitado para uma cidade interiorana e de um mau gosto típico da burguesia incipiente.  Entretanto uma explicação bastante lógica sustentava-o: com a construção de uma nova expansão do shopping center, era inaugurada um novo cinema com seis salas ultra modernas, high-tech. O público que costumava freqüentar os cinemas espalhados pela cidade concentrou-se nas comodidades do ar-condicionado do centro de compras e os cinemas mais antigos tiveram duas opções: concorrer com as salas modernas ou oferecer uma alternativa para o público que não queria ver somente os filmes comerciais acompanhados de um saco de pipoca extra large. Deparei-me com o segundo caso e bastante contente me dirigi na mesma tarde a mostra de diretores italianos.

Na sala, mais 3 ou 4 pessoas me acompanhavam. Começava a sessão, esperava algum filme pacato da década de setenta, bem poético e parado. O título do filme era Saló 120 dias de Sodoma. Pra quem já o assistiu sabe que a única coisa que não é possível é permanecer inócuo em relação a ele. Polêmico, obsceno e desafiador, fui introduzido ao cinema de Pier Paolo Pasolini. Mas não é sobre esse filme que venho falar nesse texto. Neste início de ano voltei a freqüentar as locadoras e assisti à chamada “Trilogia da Vida” composta por: Decameron (1971), Os contos de Canterbury (1972) e As 1001 Noites (1974). Os três filmes são adaptações de obras literárias medievais e possuem uma mesma temática, a da celebração da vida, de prazeres simples e carnais.

A trilogia é tida como os filmes mais simples e acessíveis de Pasolini e ganhou pela indústria da época certo ar erótico, de “soft porn”, fatia do mercado cinematográfico que estava em plena expansão na década de 70. Esse fato levou Pasolini a renegar seus filmes afirmando que a indústria cinematográfica havia se apoderado de sua obra e transformando-a em um produto para a venda.

Para tentar entender as causas deste fato é necessário conhecer um pouco da história deste autor. Pasolini nasceu na Bolonha em 1922 e apesar de ser lembrado como diretor de cinema foi poeta, romancista, tradutor, roteirista, pintor, editor, crítico de arte e jornalista. Graduou-se em literatura em 1939 na Universidade de Bolonha, era comunista e homossexual. Quando jovem viveu na Itália do regime fascista de Mussolini onde as preferências individuais eram submissas a soberania do estado. No pós-guerra presenciou um país destruído e atrasado, satélite dos outros países europeus.

Até 1949 viveria com a mãe e o irmão numa região rural de Friuli no norte da Itália. Nessa época dois fatos influenciaram definitivamente as tendências ideológicas do autor. Seu irmão foi morto quando se juntou a uma guerrilha associada ao partido socialista, para combater o avanço do regime fascista. No campo também presenciou lutas entre trabalhadores rurais e os proprietários de terra, fatos estes que foram determinante para o seu envolvimento com o marxismo.

A própria vida no campo com seus rituais, tradições e mistérios foram fonte de grande impacto sobre Pasolini e possuem forte influência simbólica em sua filmografia. O autor via que essa cultura estava ameaçada pelas mudanças que ocorriam na Itália; com a recuperação do pós-guerra e a retomada do crescimento econômico começa a se impor um sistema único de vida baseado no consumo de bens, na cultura do mercado e na comercialização da arte.  Tais mudanças, para Pasolini, levavam à aniquilação deste mundo ancestral tão caro a ele.

Sua estadia no campo teve um fim trágico: após contrariar o segredo da confissão um padre o denuncia por atentado ao pudor e corrupção de menores e é expulso do partido comunista, perde seu emprego de professor e vê-se obrigado a se retirar da região de Friuli e muda-se para Roma. Pasolini então estava desempregado, sem dinheiro e sendo processado por conduta imoral, assim arruma um trabalho como professor na periferia da cidade e para lá se muda.

Na capital Pasolini depara-se com uma realidade completamente diferente da que vivia no campo.  Roma era uma cidade de contrastes. O centro rico e efervescente culturalmente contrastava com a periferia pobre e miserável. A vida nessa periferia foi um contato com um novo mundo para Pasolini, as pessoas eram mais rudes e egoístas, era um mundo dominado pelo sensual e pelo instintivo onde a razão e os rituais sociais davam parte ao interesse necessário a sobrevivência. Foi nessa época sobrevivendo com pouco dinheiro e ao mesmo tempo possuindo a necessidade de se expressar artisticamente que Pasolini entrou em contato com o mundo do cinema escrevendo alguns roteiros de filmes para Federico Fellini e Mauro Bolognini.

Todos estes elementos influenciaram a óptica do cinema de Pasolini bem como suas opções estéticas. A principio tem-se a trilogia como filmes simples que contam histórias da época medieval com um leve toque de humor que superficialmente visa entreter o espectador. Isso pouco possui de verdadeiro visto que nestes filmes encontramos um alto teor crítico da sociedade italiana e de certa maneira das mudanças globais que estavam por vir.

Um ponto bastante recorrente nos filmes deste cineasta é a crítica a igreja e seus costumes. Em Decameron há um episódio onde um jovem camponês finge-se de mendigo surdo e mudo e é acolhido em um convento de freiras. Não demora muito para que as jovens do convento utilizem da virilidade do rapaz para satisfazerem seus prazeres carnais. Após um tempo, atendendo uma grande demanda o rapaz nega-se verbalmente a continuar com os atos e então é declarado que foi realizado um milagre: ele conseguiu falar! Em Os Contos de Canterbury o diretor faz uma belíssima recriação do Inferno – visivelmente inspirada nos quadros de Bosch – satirizando a idéia de santidade e pecado do clero católico.

A própria escolha de ambientar os contos na época em que foram escritos privilegiando as locações campestres (outro marco do cinema do Italiano) nos dá idéia de um elogio à ingenuidade e ao aspecto sensitivo, primitivo da vida. Penetrar nesse ambiente é um reencontro do homem com seu lado mais instintivo. Ao mesmo tempo, Pasolini pontua estes filmes com diversos personagens representantes do poder e da opressão. Em Os Contos de Canterbury há uma personagem que ganha a vida extorquindo dinheiro de homossexuais – já que o ato era proibido pela igreja e os pecadores que devidamente não pagassem seu “perdão” eram queimados na fogueira.

O cinema de Pasolini sempre foi contestador: assustado com o prevalecimento da cultura de consumo, Pasolini via nessa massificação um retorno ao ideal fascista onde os valores eram únicos e a pluralidade ideológica era abominada. Esse hedonismo consumista que mergulharam muitos países a partir da era industrial era abominado por Pasolini, que não aceitava essa visão distorcida de bem estar. Em toda sua filmografia Pasolini combateu essa idéia de felicidade e fez na trilogia um elogio da vida cotidiana, dos prazeres simples e principalmente acessíveis a todos, por isso a temática explicitamente sexual. Exaltando a vitalidade dos corpos Pasolini ia contra o espírito mercadológico e a hipocrisia moral da sociedade vendo no sexo um monumento de afronta a opressão e o poder. Em uma estrutura social onde o prazer vem do poder e da condição financeira Pasolini provoca mostrando o prazer dos pobres, o prazer do sexo, o prazer da comida e da bebida, reconstituído seus aspectos básicos: o gozo verdadeiro, o gozo livre de controle, livre de leis!

Essa exploração da temática carnal passa longe do sexo visto como produto, no qual a indústria cinematográfica tentou encaixa-lo. Para o diretor as imagens eram exatamente o oposto: eram um grito de liberdade e um não ao consumismo. Tanto é que as imagens nada têm de belo e erótico por si só. Pasolini trabalhou na maior parte dos seus filmes com atores não profissionais e muito longe do padrão estético de beleza. Na realidade, nesta trilogia a maior parte dos atores são bastante feios e é difícil encontrar um deles que tenha todos os dentes na boca. Longe de um sensualismo barato e de uma beleza convencional feita para vender o sexo em Pasolini é um convite ao retorno da felicidade prosaica, a aproveitar o sexo e o corpo como são, sem a esterilização de padrões de beleza e sucesso. Uma temática bastante atual na era das academias e cirurgias plásticas e dos sonhos bem montados que Hollywood esparrama pelas telas do planeta.

Pasolini era homossexual, comunista, anticonsumo, um defensor da liberdade e pluralidade de opiniões, contestador e provocador. Seu cinema é uma tentativa de simbolização destes diferentes aspectos. Foi assassinado de maneira brutal em 1975 e até hoje não se sabe bem os motivos de sua morte, sendo que a versão acatada pela justiça italiana foi diversas vezes contestada.

Assistir aos filmes da Trilogia da Vida é uma experiência estranha, talvez porque aquele mundo mítico criado por Pasolini esteja já muito distante da nossa realidade ou pelo menos das nossas fantasias. Pasolini morreu, os ideais comunistas não tem expressão, Hollywood dominou o mercado cinematográfico mundial e a massificação do ideal de sucesso predomina. Entretanto quando voltei a São José do Rio Preto, algum tempo, atrás fiquei contente em saber que o cinema que citei anteriormente ainda está funcionando e que de vez em quando passa algo diferente da programação habitual dos cinemas.

Referências Bibliográficas:

AMOROSO, Maria Betânia. Pier Paolo Pasolini. São Paulo: Cosac & Naify, 2002. P.15. GARDNIER, Ruy. As 1001 Noites. CONTRACAMPO Revista de Cinema. http://www.contracampo.com.br/60/1001noites.htm

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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