ESPIRITUALIDADE E NEUROCIÊNCIAS


Religião, espiritualidade, experiências extracorpóreas e neurociências. Parece o inicio de mais um livro de autoajuda que mistura religiões orientais e física quântica prometendo o segredo para o sucesso. Entretanto foi exatamente esse o tema de um recente trabalho científico publicado na revista Neuron. Pesquisadores italianos relataram que certas áreas do cérebro humano estão ligadas à espiritualidade e que alterações nessas estruturas podem influenciar na propensão a experiências espirituais.

O estudo chefiado por Cosimo Urgesi da Universidade de Udine teve como foco o que é chamado de autotranscendência: “a tendência de se projetar em dimensões mentais que transcendem contingências motoras e sensoriais do corpo”. Pode parecer estranho, mas é freqüentemente relatado por pessoas que possuem bastante fé e costumam meditar por longos períodos de tempo, um estado de consciência de fracos limites corporais e sentimentos de forte conexão com o universo como um todo.

Em estudos anteriores, pessoas experientes em diferentes formas de meditação, como freiras católicas e monges budistas, tiveram seu cerébro examinado usando técnicas que registram a atividade desse órgão. Esses exames indicaram que os estados mentais de epifania espiritual descritos de maneira subjetiva e abstrata pelos indivíduos eram acompanhados de mudanças na atividade em diferentes áreas do córtex cerebral – a camada mais externa do nosso cérebro e responsável pelos processamentos mais sofisticados da cognição humana.

De fato, a prática constante da meditação pode induzir mudanças nas funções cognitivas e na atividade neural que acompanham os praticantes por muito mais tempo que a prática da meditação em si. Diferenças na espessura do córtex entre praticantes experientes de meditação e indivíduos não praticantes também foram encontradas, sugerindo que as diferenças cognitivas e emocionais entre esses indivíduos estão expressadas também na anatomia do sistema nervoso.

O estudo publicado pelos pesquisadores italianos mostrou que uma região específica do córtex localizada na região posterior do encéfalo, o córtex parietal, tem uma grande participação na espiritualidade, mais especificamente na sensação de auto transcendência descrita anteriormente. Os cientistas estudaram pacientes com meningiomas – tipo de câncer que ataca o cérebro – e que foram submetidos a cirurgia para remoção do tumor. Realizando uma série de questões antes e após a cirurgia de remoção do tumor os pesquisadores foram capazes de acessar aspectos da espiritualidade dos indivíduos. O questionário centralizava em três principais componentes da auto transcendência: se perder no momento, se sentir conectado a outras pessoas e a natureza, e acreditar em um poder maior.

Os resultados mostraram que após a retirada do tecido nervoso na região do lobo parietal inferior esquerdo e no giro angular direito do encéfalo (ver figura), os pacientes relataram uma maior sensação de auto transcendência indicando um papel importante dessa região na percepção corpórea. Segundo Urgesi: “O mais surpreendente foi a rapidez da mudança. Essa descoberta mostra que algumas características complexas da personalidade são mais maleáveis do que se pensava”.

Bom mas você pode estar pensando que essas mudanças podem ser devidas a condições estressantes da cirurgia e do perigo envolvido nela. Situações que por serem questionadoras podem influenciar a percepção e a espiritualidade de uma pessoa. Entretanto os mesmo pesquisadores verificaram que pacientes cujo tumor se localizava na região frontal do córtex – outra região envolvida com religião e espiritualidade – e que foram submetidos a cirurgia para remoção do tecido tiveram resposta bem diferentes após a retirado do tumor, indicando um menor sentimento de auto transcendência.

A explicação segundo os cientistas é que o córtex parietal está envolvido na representação de diferentes aspectos do conhecimento corporal. Lesões nessa região podem induzir déficits na representação espacial entre segmentos do corpo e alucinações relativas a partes corporais. Assim, a redução da atividade neural no córtex parietal durante experiências espirituais pode refletir na sensação alterada do corpo no espaço.

Uma diminuição da atividade no córtex parietal pode estar relacionada com as epifanias espirituais alcançadas por alguns praticantes e com as atitudes e comportamentos religiosos. Segundo os autores, esses dados sugerem que características da personalidade humana podem sofrer rápidas mudanças devido a lesões em regiões cerebrais indicando que algumas dimensões da personalidade podem ser influenciadas alterando-se a atividade neural em algumas áreas cerebrais.

O que esse artigo mostra de mais interessante para nós é que mesmo traços e pensamentos que julgamos como sofisticados e complexos possuem materialidade, ou seja, dependem de processos e relações materiais para serem expressos, no caso células neuronais presentes numa região do cérebro humano. A influência do pensamento cartesiano separando mente e matéria, corpo e alma moldou muito da nossa sociedade, inclusive a visão de saúde que encontramos atualmente. Médicos tendem a ser técnicos e epecialistas e na maioria das vezes não se preocupam com estado geral de saúde do paciente. Temos médicos especialistas nas terapias do sistema digestório, das doenças da pele, no sistema ciruculatório, etc. Raramente tem-se um quadro geral do funcionamento do organismo do paciente. Quando algum tipo de patologia transcende uma área especifica de atuação cabe ao paciente consultar diferentes especialistas e costurar diferentes diagnósticos. Quando o assunto toca temas como o estado emocional ou afetivo do paciente, mais incapacitado torna-se o corpo médico e na maioria das vezes o culpado é o genérico e famigerado “stress”. Na maioria das vezes trata-se os sintomas específicos que nos são “visiveis” por complexos exames permitidos pela tecnologia, mas o quadro geral de saúde continua sem investigação.

Por outro lado, temos diversos psicológos e psicanalistas que negam a materialidade da mente creditando a esta algum tipo de valor espiritual, zombando de termos como seronina e córtex parietal. Estes cometem a mesma falácia, afinal como o exemplo acima demonstra, a mente é o produto da atividade de um organismo, de neurônios presentes em um copro fisico material. Alterações no funcionamento dessas minusculas unidades celulares podem acarretar em comprometimento das funções cognitivas e emocionais levando a alterações no comportamento. É passada a hora do dialógo entra essas diferentes áreas começar.

13 comentários

    1. Fala Caio, obrigado pela participação. Um livro bem interessante nesse sentido é o “Ponto de mutação” do Fritjof Capra, nele o autor discute a influência do pensamento Cartesiano na economia, na área médica, na produção científica e na consevação ambiental.

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      1. Além do “Ponto de Mutação”, sugiro também “A Teia da Vida”, do mesmo Capra, onde ele traz as várias concepções da vida em redes passando pelo pensamento sistêmico.
        abs.

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    1. Primeiramente obrigado pelo comentário. Espero que com os artigos aqui publicados possamos iniciar discussões frutíferas e que possamos aprender um pouco dessa área tão interessante que é o estudo do cérebro.

      Com certeza quanto mais aprendemos sobre o cérebro e seu funcionamento mais próximos estamos de entender qualquer tipo de patologia relacionada. O contrário também é verdade, visto que quando estudamos o cérebro alterado e relacionamos com fenômenos e aspecto clínicos da patologia também aprendemos muito sobre o funcionamento normal do orgão.
      De maneira mais específica, outros estudos mostraram que pacientes com epilepsia do lobo temporal (a epilepsia mais comum) e pacientes com demência do lobo frontal também apresentavam uma mudança nas suas crenças religiosas. Além disso, pessoas com esquizofrênia e transtornos de personalidade apresentam uma pontuação alterada no mesmo questionário aplicado no estudo acima.
      Os pacientes que tiveram remoção de parte da região parietal do encéfalo apresentaram uma visão alterada – quando comparado a antes da cirurgia – sobre seu corpo e a percepção dele no espaço. É tentador relacionar isso com esquizofrênia e outras psicoses, nas quais há uma noção alterada da realidade. Entretanto na esquizofrenia uma das áreas mais comprometidas é justamente o córtex pré-frontal. Relembrando o texto, este córtex também teve parte de seu tecido removido nas cirurgias, mas após a remoção os paciente apresentaram uma sensação auotranscendeência diminuída. Então não podemos afirmar com certeza uma relação tão direta.

      Nas ciências e particularmente nas ciências biológicas e mais acentuadamente nas neurociências os quadros são complexos e multifacetados composto por pequenas peças, pequenos achados que em conjunto tentam formar uma imagem. Acredito que este artigo contribui mostrando que mesmo pequenas lesões em regiões cerebrais podem levar a alteração de pensamentos, da auto-percepção e do comportamento. Porém o que temos que pensar, quando lidamos com a complexidade de um órgão com mais de 80 bilhões de células, trilhões de conexões entre elas e cuja principal função é a comunicaçãoo é que não devemos olhar somente para células ou áreas específicas para se ter um entendimento de seu funcionamento. O olhar deve ser parecido com o de um maestro que não olha as notas ou os instrumentos separadamente e sim escuta a sinfonia.

      Boeker, H., Kleiser, M., Lehman, D., Jaenke, L., Bogerts, B., and Northoff, G.
      (2006). Executive dysfunction, self, and ego pathology in schizophrenia: an
      exploratory study of neuropsychology and personality. Compr. Psychiatry
      47, 7–19.

      Devinsky, O., and Lai, G. (2008). Spirituality and religion in epilepsy. Epilepsy
      Behav. 12, 636–643.

      Miller, B.L., Seeley, W.W., Mychack, P., Rosen, H.J., Mena, I., and Boone, K.
      (2001). Neuroanatomy of the self: evidence from patients with frontotemporal
      dementia. Neurology 57, 817–821.

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      1. Independente de qualquer achado científico, que consitui um “tijolo de conhecimento”, esperimentos desse tipo nos levam rapidamente a ideia de que a consciencia, pensamento e outras funcóes psiquicas superiores, há muito tempo vinculadas a forças sobrenaturais, sao necessariamente desenvolvidas em um plano material bem definido. Uma boa metáfora disso seria de que a neurociencia estuda o palco em que uma peça de teatro se desenvolve (do que e feito o chão, a cortina, os holofotes , como funciona a mesa de som, etc.), a psicanalise estudaria a peça em si, seu discurso, sua origem, personagens, etc.
        O problema é que a neurociencia tenta propor teorias sobre a peça, estudando elementos do palco. Muitas vezes acertando, porque o palco de certa forma limita a peça e define algumas praticas e atos mais ou menos constantes. Mas muitas vezes erra, faz aproximaçoes simplistas demais e insere discursos infundados na sociedade. Viajei, Rafa??

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  1. E aí, povo?! Uma resposta ao Nando, especificamente (que, tomara, contribua para o papo).
    Antes de mais nada, seu discurso possibilita a interpretação de que a psicanálise é o único contraponto comportamental às neurociências. No entanto, sabemos que muitas outras estratégias (empíricas e filosóficas) também tentam acessar o encéfalo “pelo lado de fora”: ou seja, não nos esqueçamos da etologia, da psicologia experimental, e da psicologia em geral, com suas várias vertentes, etc.
    Uma vez posto este esclarecimento, defendo que o alcance daquela neurociência “que acerta” (usando suas palavras) não se limita ao aparato físico usado na tal peça de teatro. Por mais que algumas linhas de pesquisa enquadrem-se, de fato, nesse limite (no “hardware”), outras têm examinado processos funcionais (eletrofisiológicos, biomoleculares, etc.) altamente coerentes com a observação comportamental. De certa forma, a neurociência está começando a enxergar as personagens, enredos, etc., por mais que o nível ainda seja panorâmico. Afinal, ainda é difícil “meter a mão na massa” de processos complicados (por exemplo, a origem daquele ranço com o pai, as causas misteriosas de um problema conjugal recorrente, etc.); porém, os quebra-cabeças referentes a padrões comportamentais mais básicos (que compartilhamos com outros animais), como aqueles estudados pela antiga escola behaviorista, já começam a ficar mais nítidos atualmente. A comparação metafórica que fez apenas reproduz o dualismo cartesiano, sem reconhecer que o grande conjunto “neurociências e comportamento” tende a quebrar essas fronteiras seculares.

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    1. Otimo comentário!
      Minha metáfora esta longe de APENAS introduzir o dualismo cartesiano evidentemente utilizado tambem pelas neurociências, pelo menos até agora. Acredito nas neurociências como importante ferramenta, mas critico seu estado atual.
      Acho que voce nao entendeu. Na minha metafora há 2 elementos: O palco e as personagens.
      Palco considero todo substrato neural e processos funcionais, inclusive. Personagens considero a atividade psiquica, que seria o resultado da atividade integrada de todo sistema nervoso e toda subjetividade do comportamento HUMANO. Meu comentario nao apontou para pesquisa em outros animais. Minha crítica à neurociencia vai no sentido de que ela tende a explicar processos complexos (com muitos fatores a se considerar, como por exemplo religião, apego ao pai etc. ) pelo descobrimento de alguma molécula ou algum processo fisiológico. Sim, isto é muito interessante e é sensacional; mas nao da conta de todo processo que, em humanos, é evidentemente recheado de subjetividade pessoal.
      Nao estou sendo dualista, estou apontando um dulismo existente, propondo a integraçao (alias como todo cientista ou psicanalista de boa vontade o faz).
      Infelizmente, Lézio, ainda seremos dualistas por questões práticas do nosso trabalho cotidiano. Eu, em meu consultório, nao posso ainda instalar eletrodos em meus pacientes; embora as vezes acabo me questionando se aquele sujeito sentado na minha frente, deprimido, nao possui uma disfunção dopaminérgica que o impossibilita de aproveitar a vida e reconhecer fontes simples de prazer (?). Mas na minha prática “dualista”, o meu, digamos, bisturi corta de outro modo, e quando corta… A provavel dusfunção quimica dopaminergica pode ser sanada, por exemplo, porque tocamos em alguns assuntos relativos ao primeiro namorado (a) do paciente em questão… Ok , isso acontece! São reconsolidações de memoria, novas sinapses sendo efetuadas, mas este, insisto, é o palco da trama que se desenvolve na mente do sujeito. Esse palco é acessado pela fala, pela linguagem. E a psicanálise vem há muito tempo, pioneiramente e eficazmente (tanto que é queridinha de alguns eminentes neurocienctitas como Damasio, Kandel, Ledoux e outros) desbavando o que a neurociencia nao deu conta, pelo menos por enquanto.
      Ficam entao dois comentários de Freud.

      “Deve-se recordar que todas as nossas provisoriedades psicológicas deverão, algum dia, se assentar no terreno dos substratos orgânicos” ( S. Freud. Introdução ao narcisismo ,1914, p. 46).

      “É provável que os defeitos de nossa descrição desapareçam se, em lugar dos termos psicológicos, pudéssemos já usar os fisiológicos ou químicos” (S. Freud. Além do princípio do prazer,1920, p. 268).

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      1. Enfim, esse debate reflete o pensamento vanguardista de nosso humilde século XXI: todos os habitantes de laboratórios de neurociências, florestas com bugios, clínicas de psicologia ou psicanálise, etc. têm a obrigação de reconhecer que o muro entre corpo e alma está ruindo. Porém, tal muro é milenar e continua alto e espesso, por causa de nossa limitação técnica. Assim, independentemente de alguém ser um cientista, um rico empresário ou mais um indivíduo pertencente à grande massa (injustamente) carente, todos estamos sob o mesmo zeitgeist, em que processos NEURAIS de experiência “mística” (como os descritos pelo Sr. Ruggiero) continuam garantindo a lotação dos templos (e o decorrente ódio ignorante entre as diferentes interpretações do MESMO misticismo fisiologicamente fundamentado).

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      2. Muito obrigado pelos comentários.

        Acredito que, como disse no texto, ambas as áreas aqui debatidas – neurociências e psicanálise – acabam enfocando aspectos específicos sem conseguir conciliar e abranger todo o espectro do funcionamento mental. Seguindo esse raciocínio, ambas perpetuam o dualismo cartesiano criticado.

        As bases investigativas que fundamentam essas vertentes também são bastante diferentes. A psicanálise baseia-se nas inferências subjetivas da observação do comportamento e na linguagem que o paciente usa para relatar suas experiências emocionais, ferramenta que o analista utiliza para fazer um construto do conteúdo subjetivo do analisado (corrija-me se estiver errado Luís). Assim, é um foco de estudo na individualidade e subjetividade. Já as neurociências baseiam seus achados em experimentos objetivos e que possuem reprodutibilidade, ou seja, fenômenos onde se tenta minimizar a subjetividade do observador e que podem ser observados várias vezes sob as mesmas condições. De maneira simplificada, as ciências seguem o princípio de que se um fenômeno é observado um número suficiente de vezes a satisfazer certas condições estatísticas há uma grande probabilidade desse fenômeno não ser casual, ou seja, não ser fruto de uma “subjetividade” experimental.

        Tomemos como exemplo um experimento que objetiva verificar o efeito de uma droga recém descoberta. O protocolo padrão seguido pelas ciências biológicas seria de administrar essa droga em um certo número de ratos (por exemplo) e verificar as alterações comportamentais do animal e compará-las a animais que receberam apenas soro fisiológico (não provoca alterações comportamentais) – grupo controle. Digamos que a droga aumenta a atividade locomotora do animal fazendo-o caminhar mais num mesmo período de tempo quando comparado aos animais controles. Caso essa alteração ocorra em um número suficiente de animais e com uma magnitude suficiente, intrínsecas a estatística envolvida, há (na maioria dos casos) 95-99% de chance de aquele fenômeno verificado ser devido a um efeito da droga e não a qualquer obra do acaso, como diferenças individuais entre os animais.

        Temos então na psicanálise um estudo da individualidade e pessoalidade que a partir daí tece teorias gerais sobre a lógica mental humana, enquanto que as ciências do cérebro seguem um caminho oposto: servem-se de observações generalizadas (onde aspectos individuais tendem a ser minimizados) para fundamentar teorias gerais do funcionamento cerebral e a partir daí tenta-se fazer algumas afirmações individuais.

        Concordo com o Luís que temos nas neurociências uma grande limitação de abrangência e na maioria das vezes falamos de aspectos fisiológicos e estruturais sem tanger a “mente” (usei de propósito esse termo para demonstrar a influência do pensamento dualista, estamos tão acostumados a essa separação que nós é difícil até encontrar um vocabulário adequado). Com certeza essa limitação tem que ser discutida e acredito que o diálogo entre essas diferentes áreas pode ser início de alguma solução.

        Entretanto, creio que essa limitação é fruto de um cuidado empírico que as ciências possuem ao abranger suas teorias. Pelo fato de definirmos como metodologia científica aquilo que pode ser testado e replicado não podemos abranger excessivamente os achados laboratoriais. A psicanálise ao mesmo tempo livre e amaldiçoada como não ciência expande as observações de analistas a uma magnitude quase ofensiva comparada a modéstia das extrapolações científicas. Considero algumas teorias da psicanálise frutos de um construto mental individual, extrapolações cuja subjetividade é inerente, e assim, mais obras artísticas do que propriamente ciência. Não me levem a mal, pois faço terapia com um psicanalista e acho fantástico, além do que é bem estabelecida a eficácia terapêutica da psicanálise para alguns casos. Creio também, que essa ação terapêutica deve-se muito mais a relação estabelecida entre analista e analisando do que a qualquer fundamentação teórica adotada pelo terapeuta.

        Agora quanto ao comentário do Luís das extrapolações exageradas dos achados neurocientíficos, eu acho que eles são devidos muito mais a um sensacionalismo do jornalismo científico que sente necessidade de títulos e comentários abrangentes e chamativos para prender a atenção de um leitor atarefado que facilmente se entediaria com o linguajar técnico científico. Por exemplo, quando estava escrevendo o texto acima me vali de várias fontes além do próprio artigo original. Em várias matérias (inclusive sites de instituições conceituadas) encontrei extrapolações da pesquisa acima citada cujo conteúdo não era citado em nenhum momento pelo autor, extrapolações do jornalista a fim de deixar o conteúdo mais palatável e interessante, mas que em alguns momentos ia além do escopo do artigo científico.

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      3. Tomara que os leitores interessados neste papo, que aqui chegaram via google e afins porém não estão diretamente envolvidos com a prática científica ou a psicanalítica, prestem atenção ao último parágrafo da resposta acima (do Rafa). Se vocês estão lendo tudo isso, podem estar de alguma forma (talvez inconscientemente!) insatisfeitos com a pseudo-formação científica veiculada pela maioria das escolas (não importando o nível) e pela grande mídia.

        É ridículo ouvir o Globo Repórter traduzir um documentário estrangeiro dizendo que o Himalaia foi erguido porque a Índia boiou sobre o oceano em direção à Ásia, colidindo com ela. É ridículo abrir uma página da Superinteressante e dar de cara com uma ilustração mostrando o cromossomo como se fosse uma cápsula protegendo a cromatina. É ridículo observar cenas de neurônios luminosos piscando sobre um fundo neutro e escuro como se fossem luzes natalinas.

        A prática que o jornalismo científico (o mal feito) tem de atrair a atenção do público por meio de extrapolações e discursos finalistas comprovacionistas está, na maioria das vezes, distorcendo informações e colocando o “dado cientificamente comprovado” no mesmo altar dedicado aos santos. Infelizmente, a culpa cai sobre todos os lados: o dos jornalistas (que, em geral, ainda não têm o hábito de medir afirmações em detrimento do sensacionalismo) e o dos próprios cientistas (que, em geral, ainda têm muito que aprender na área da comunicação extra-acadêmica).

        Felizmente, uma nova geração de pensamento tem se preocupado cada vez mais com a divulgação científica responsável, que torna a ciência atraente sem deixar de lado o cuidado em mostrar para a sociedade que a base da ciência não é a comprovação, e sim a eterna dúvida, o questionamento, o exercício mental. O presente blog, por exemplo, faz parte desse movimento. Aliás, em países cientificamente mais desenvolvidos que o Brasil, o tal do “science awareness” constitui disciplina, com catedráticos e tudo mais.

        Educar a sociedade para que ela seja mais crítica significa competir com as religiões, cuja base, ao contrário da ciência, é a certeza. E neurocientistas, psicanalistas, psicólogos, etc. concordam que a melhor “musculação” do cérebro não é a certeza, mas a humilde e curiosa dúvida.

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  2. Ótima discussão sobre o jornalismo científico.
    Nesso ponto, unica coisa que posso acomentar é sobre a técnica psicanalitica
    A técnica psicanalitica é constituida por alguns elementos que exigem bastante treino e estudo constante. Mesmo porque psicanalista ou terapauta que nao estuda e nao se reúne pra discutir seus casos, corre o risco de reproduzir na clinica apenas um “bom papo de boteco”; coisa que nao se sustenta ao longo do tempo. A Livre Associação, uma das técnicas cosiste em deixar o paciente falar tudo que lhe vem a mente, ou seja, sem perguntas obvias do analista, que direcionariam o relato, num sentido cronologico e tematico. Para que isso aconteça o analista precisa estra preparado para o caos dos relatos, que geralmente – e é bom que isso aconteça – vem desestruturado e com ordem cronológcia bagunçada. Bom, alem disso, o analista precisa arrumar um jeito de consituir uma relaçao muito apropriada com o paciente de modo que ele se sinta realmente a vontade de falar sem rédeas sobre sua vida e cotidiano. Sao duas coisas bem difíceis de se fazer. E a teoria psicanalitica, de modo bastante indireto, propicia este “treino” ao analista. A relaçao com o analista conta sim, com certeza, mas nao é apenas isso. A relação (boa ou ruim) seria como o óleo lubrificante de um motor.

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