NINGUEM CHUTA CACHORRO MORTO: A PSICANÁLISE NA BERLINDA?


O filósofo leu Freud com pressa.

“A psicanálise não cura e nem trata pela simples razão de que os pacientes que vão ver um analista não são doentes, mas têm o imaginário entulhado de culpas, de fantasmas, de representações. Ela permite a um sujeito que deseja, e se sente impedido, superar essas dificuldades por meio da identificação das resistências para poder, literalmente, se encontrar e se aceitar, desmontar as armadilhas que ele mesmo se coloca para evitar estar diante de seu desejo” (Michel Plon)

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Foi lançado na semana passada, pelo filósofo francês Michel Onfray, o livro “O Crepúsculo de um Ídolo – A Fabulação Freudiana” (ed. Grasset, 624 págs., 22, R$ 52, ainda sem tradução nacional). No livro, lançado na quarta passada, Onfray se entrega com indisfarçável deleite ao ataque contra Freud e o freudismo. O autor, que se tornou um best-seller com livros de vulgarização da filosofia, traça o que ele chama de “psicobiografia nietzschiana de Freud” (Folha de S.P., Caderno Mais, 25/4).

O que me chamou mais atenção é como o autor trata de forma rasa, o que qualquer aluno de formação psicanalítica logo no primeiro ano já é informado. Isso diz respeito a o que esperar de um tratamento psicanalítico, cuja ética e transparência representam um oásis em um deserto cheio de garantias bobas e métodos infalíveis de ser feliz.

O Autor diz que “A psicanálise cura tanto quanto a homeopatia, o magnetismo, a radiestesia, a massagem do arco do pé ou o exorcismo feito por um sacerdote. Sabemos que o efeito do placebo constitui 30% da cura de um medicamento, acrescentou. Por que a psicanálise escaparia desta lógica?”

A psicanálise não se propõe a promover curas de curto prazo – como a psiquiatria sem querer propõe – e não é necessariamente uma terapia, ou seja, não é tão “gostoso” assim fazer análise. É vedado ao psicanalista garantir resultados bons ou ruins, porque a questão do que é bom ou ruim não pertence à psicanálise, e sim ao sistema de valores do próprio paciente que vai poder decidir o que é bom ou ruim em seu contexto.

O placebo do latim placere, significando “agradarei”, é como se denomina um fármaco ou procedimento inerte – pílulas de farinha, por exemplo – e que apresenta efeitos terapêuticos devido aos efeitos fisiológicos da crença do paciente de que está a ser tratado. A psicanálise é diferente de outras práticas terapêuticas ou médicas. Uma consulta que você faz no consultório médico, por exemplo, é bastante exata. Você chega e se queixa de uma dor nas costas. O medico lhe faz um exame, e propõe um tratamento específico para sua dor nas costas com algum medicamento e fisioterapias. Depois de um tempo, você sente-se bem melhor, ou seja, o tratamento fez efeito. Fez mesmo? Ai as coisas complicam. O que fez efeito em se tratamento? O efeito do remédio no seu organismo ou outros fatores? Como: sua simpatia à primeira vista pelo médico ou o fato de você ter sido bem tratado pela secretária e etc. Esse é um campo de estudo científico muito fecundo, e o placebo consiste em um fato médico.

Mas na psicanálise não é bem assim. Primeiro porque na maioria das vezes o paciente se queixa de problemas dos quais pouco sabe (“Sinto uma coisa ruim”, “Um aperto no peito, na garganta”, “Estou triste”, etc.), ou seja, nem sempre se constitui um distúrbio conhecido e fácil de diagnosticar. Muitos pacientes chegam na clínica psicanalítica depois de terem passado por muitos médicos, sem ter sucesso algum. Segundo, porque não há um objetivo definido no tratamento psicanalítico, o objetivo do tratamento se constrói, muda ao longo do tempo e na maioria das vezes o paciente não vê mais motivos de ter objetivos fixos quanto a melhorar e ficar bem, pois isso acaba acontecendo como um “bônus” das sessões de análise (neste sentido temos relatos de pacientes que dizem espantados que “se lembrou ontem de que não esta mais sofrendo”). Portanto, não há como definir que a “psicanálise constitui um efeito placebo”, pois não há como definir o efeito esperado de um tratamento psicanalítico. O autor comete um erro grave ao afirmar isso.

A psicanálise é pra que suporta a idéia de que não podemos nos curar de nós mesmos.

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2 comentários

  1. Já “enfrentei” sessões de psicanálise e, pelo menos para mim, não fizeram o menor sentido; em certos momentos fiquei até embaraçado com a forma como elas são conduzidas.
    Mesmo já sabendo o que esperar resolvi dar uma chance ao tratamento relatando os problemas mais íntimos que me afligiam. Porém, por mais que tenha aberto minha mente, meu ceticismo acabou se confirmando. Sinceramente, não vejo motivo para acreditar que uma pessoa vindo cheia porquês e palavras de incentivo moral seria melhor do que eu para resolver meus próprios problemas. Deu para perceber que muito do efeito da psicoanálise tem haver com a ideia de que no fundo sabemos as respostas para nossos problemas, mas precisamos ouvir elas da boca de outra pessoa para realmente nos identificarmos com elas. Por sorte, existem os medicamentos, que são fruto de um verdadeiro processo científico e que ajudaram a me tirar de onde eu estava.

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  2. Quem tem problemas mais graves como fobia social, trastorno de ansiedade, síndrome do pânico, depressão profunda é melhor buscar um psiquiatra e se tratar com um analista do comportamento, porque se for esperar pelo psicanalista …Putz…Perda de tempo. Tenho mais o que fazer…

    Experiência própria. Graças hoje estou curada da minha fobia, porque me toquei que tinha que ir atrás de algo que funcionasse realmente.

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