AVATAR: UMA HISTÓRIA SOBRE A PERDA DA DIGNIDADE


Lloncon, líder Mapuche no ano de 1890

“…essa tendência à agressão, que podemos perceber em nós mesmos e cuja existência supomos também nos outros, constitui o fator principal da perturbação em nossas relações com o próximo; é ela que impõe tantos esforços à civilização”. (Freud, S. 1920. Além do Princípio do Prazer)

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Muito esperado pelos amantes da tecnologia o filme “Avatar” de James Cameron ofereceu pela primeira vez, uma nova experiência de cinema (3D), no entanto levou apenas três estatuetas do Oscar de categorias técnicas: direção de arte, efeitos visuais e fotografia.  Muitas críticas sobre esse filme apontam que ele pode ter sido plágio de um livro e suas personagens azuis foram também plagiadas de quadrinhos da década de 80 (Timespirit). Bom, gostei do filme, é um bom divertimento, mas como todo bom filme hollywoodiano obviamente cai na infantilidade boçal. Mas não é isso que me chamou a atenção.

Seres azuis e grandes vivem num planeta de natureza abundante em estado de total conexão com ela (o que já é um absurdo porque sobreviver exige intervenção violenta na natureza e certa desconexão). Então seres humanos com suas máquinas potentes querem invadir o paraíso azul e retirar de lá um minério muito valioso. Dá se aí uma trama que me lembrou a época de colonização por que passamos há mais ou menos 500 anos. Os humanos então aplicam uma série de táticas violentas para conseguirem seu objetivo e não são bem recebidos pelo povo da floresta.

Pensei que numa época primordial, em que vivíamos num estado mais selvagem, os impulsos agressivos eram mais frequentemente utilizados por nós. Tanto para caçar quanto para nos defendermos de alguma ameaça, lutávamos, batíamos, corríamos, subíamos em árvores. Hoje em dia manifestações agressivas são vistas e consideradas inadequadas em nossa sociedade. Se alguém lhe aponta uma arma para lhe roubar um relógio, você é incitado pelos padrões morais a “dar tudo o que tem“ e não reagir ao assalto. Ora um “relógio é apenas um relógio”, “você com seu trabalho pode comprar outro”, “sua vida vale mais que um relógio”, “são frases que tampam uma verdade que incomoda: Você é um fracassado em sobreviver nessa selva.

Depois de um assalto ou uma agressão sofrida, seu corpo treme, você não consegue dormir pensando e ensaiando uma maneira de se vingar do assaltante. Como se seu corpo se mobilizasse pronto para luta. Afinal, um relógio não é apenas um relógio, é fruto de algo muito valioso: O seu trabalho. O que é roubado em um assalto não é o objeto em si (relógio), mas a representação que ele tem na sua mente (por isso um relógio não é apenas um relógio).

No filme Avatar, assim como no sul do Chile (índios Mapuches, que resistiram por 300 anos às invasões européias) o relógio não é dado de maneira fácil. Ao sermos violentados, temos instintos que nos incitam obviamente a responder com mais violência. O que fazer então com esses instintos naturais que estão em nós por milhares de anos? Simplesmente reprimir? Fazer com que desapareçam? Tomar Rivotril?

A vida em sociedade promoveu um rebaixamento dos instintos básicos nos transformando em fracassados frente às ameaças naturais. Somos “impotentes de carteirinha” e sofremos por isso.  Viver exige certa agressividade. Comer, dormir e fazer sexo exigem luta e batalha contra um ambiente natural inóspito e predadores diversos. Atualmente necessidades dessa ordem são postas de maneira estupidamente fácil e desimportante nos levando a acreditar piamente que a vida é uma coisa banal (a ponto de ficarmos casados com uma pessoa por 40 anos e simplesmente não ligar se ela nos bate todo dia, ou de não ligarmos de trabalhar com o que não gostamos todo dia). E adoecemos por isso.

Ser civilizado é uma condição degradante. Temos o conforto de termos geladeira, televisão e supermercado, às custas do aniquilamento de forças psíquicas fundamentais em nós.

1 comentário

  1. Excelente artigo, Nando. Já parei para pensar nisso diversas vezes, e no que significa ‘ser civilizado’ (enquanto um conceito antropológico). Nos sentirmos civilizados, parece, nos garante para além de “efeitos-visuais” (como o filme que ganhou um oscar por isso), pura convenção moral, algo do tipo como alguém que diz: “Tá bom seu ladrão, seu “primitivo” de merda, pode levar meu relógio que eu não ligo pra isso, sou “superior” a isso tudo e a você, inclusive… Eu trabalho e compro outro”. E quanta coisa deixamos mesmo de lado pelo instante de tempo em que se diz a si mesmo: “Sou mais que esse outro aí…(sou civilizado)!”.

    Assim continuamos, de forma medíocre, a desempenhar nosso papel de “bom-selvagem”, a cada dia da vida, e como você enfatizou adoecemos exatamente por isso. É interessante pensar, para além, pelo viés da agressividade, ou melhor, de sua perda. É bem nesse sentido que programas como o Café Filosófico, exibido no canal da Tv Cultura, tem séries organizadas por curadores renomados no meio científico, psicanalítico, filosófico, enfim, para se pensar “A crise do masculino”, “A crise do macho na contemporaneidade”, e por aí vai.

    Como diz Roberto Da Matta (antropólogo), “perdemos a agressividade desde muito antes de não usarmos mais as mãos para comer”.

    Ah!, humanos…

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