JA É HORA DE UM MOVIMENTO CONTRA REDES SOCIAIS?


Moralista de plantão. Não. Não vou falar mal das mídias sociais e nem propor uma passeata pedindo a cabeça de Mark Zuckerberg e tão pouco exigir uma volta aos tempos em que as pessoas viviam felizes e saltitantes sem o computador. Não.

Entrei e fiz meu cadastro (depois de ter sido insistentemente convidado por e-mail) recentemente no Facebook a nova febre dos perfis virtuais e logo percebi que, sem eu permitir, meu perfil agia de maneira autônoma. Eram enviados convites para pessoas de meus contatos de e-mails. Li que eu não sou o único, e que outras pessoas tem reclamado a mesma coisa. A privacidade e autonomia na internet: O que é isso? Vejo de forma simples. O usuário coloca as informações que quiser, não é obrigado a divulgar sua vida toda. No entanto, há uma tendência crescente de pessoas (sobretudo crianças e adolescentes) de exporem excessivamente fotos, vídeos e impressões cotidianas. Posto isso, vamos seguir em frente.

O Orkut, que foi pioneiro no gênero, está abarrotado de esquisitices e pessoas que necessitam a todo custo expor sua vida. Esse ponto é bastante interessante para discutirmos: a necessidade que foi criada nas pessoas de expor suas vidas, o novo voyeurismo eletrônico.

Em algumas situações vejo pessoas e suas máquinas fotográficas digitais ou celulares tirando fotos compulsivamente. Não precisamos mais comprar filmes de rolo ou pagar a revelação das fotos e isso parece justificar tal compulsão em congelar os momentos. Mas não me satisfaço com tal explicação. Sinto que parece estar mais importante o registro do momento, para que ele seja visto por todas as pessoas mais tarde, no perfil social da internet, do que o momento em si, do que de fato estar lá experimentando a situação, curtindo o momento, como qualquer ser humano fez até hoje. Vejo a ultra valorização de uma memória (digital) em detrimento da experiência instantânea do momento. E me pergunto qual a função disso?

Parece que ir e experimentar uma situação (show, férias na praia, balada com os amigos) não basta. Há que se registra tal momento em vias digitais. Tal registro se faz urgente porque foi se perdendo a capacidade de experimentação do mundo e a curiosidade frente aos objetos e situações, como se o mundo fosse um museu em que não podemos tocar e influir diretamente em nada, nos restando apenas tirar fotos para ver mais tarde, em nossa casa, sozinhos. Isso é diagnóstico do que chamo pessoalmente, pela minha experiência clínica, de “vontade de impotência”: uma vontade bem escondida em nós de não participar do mundo, de deixar pra lá, de desaparecer, confirmando nossa condição inerentemente desamparada e, nos tempos atuais, impotente frente à um mundo pronto e perfeito, onde apenas os “experts cientistas” podem de fato fazer alguma coisa que presta.

Só nos resta então, ver e tirar fotos. Depois vemos aquele álbum de 1300 fotos e dizemos para nós mesmo: “Sim, eu estive lá”. Como se necessitássemos de uma prova de realidade, pois não podemos mais confiar na nossa própria memória do evento. Enfim, a máquina digital, nos oferece um meio de experimentar a realidade porque não confiamos mais na nossa própria mente como verificador da realidade, não podemos mais extrair um sentido de experiência integrada por nos mesmos. A meu ver, isso é quase uma psicose, uma desintegração da personalidade, a ponto de não mais sabermos se algo é real ou alucinatório.

Mas não basta tirar as fotos e guardar o álbum, não basta sentir se feliz. É preciso mostra isso para todos. E aí entra a necessidade moderna de redes sociais. Pode se pensar que as mídias sociais realizaram um antigo sonho humano de nunca, jamais nos sentirmos sozinhos. Em um mundo em que não conhecemos nosso vizinho de apartamento, e que não há mais o “Mercado do seu Zé” ou a “Quitando do seu João”, isso tem um valor incrível. E o mais “legal” disso tudo é que a solidão desse mundo continua lá… Impávido colosso.

E o mais incrível, é que essas redes sociais adquirem aspecto de realidade muito mais forte do que nossa própria realidade cotidiana. Evidência disso é o “Bullying”, termo em inglês para assédio moral no ambiente de trabalho ou estudo, pela internet, por meio de falsos perfis ou comunidades nessas redes sociais. Para exemplo disso veja em www.e-paulopes.blogspot.com os tópicos: “Meninas formam grupo para bater nas colegas estudiosas e bonitas”; “Jovens estupram garota e colocam vídeo no Youtube”; “Polícia do Pará investiga proliferação de vídeos de pornô escolar”.

Você pode não ser uma garota de programa, mas se você for alvo de difamação pela internet isso pode adquirir um senso de verdade instantâneo, porque a realidade virtual da internet adquiriu peso maior do que a própria realidade cotidiana.

E é exatamente, contra esse movimento de naturalização de uma realidade sem graça e infame que proponho que as pessoas pensem a respeito disso e, se puder, deixem de participar dessas redes sociais, e passem a participar mais ativamente da velha realidade que esta diante de nossos olhos todo dia.

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20 comentários

  1. Luís Fernando (que estranho isso)!

    Adorei seu texto.
    Pode contar com meu apoio neste seu movimento. Apesar de eu achar que é uma tarefa árdua e, em certos casos, desestimulante.
    Um paralelo interessante pode ser feito com o meio profissional que eu escolhi. No meio acadêmico, lidamos com a questão da divulgação científica de qualidade na tentativa de acabar com a alienação permanente em que nossa sociedade encontra-se e parece querer bater a cabeça cada vez mais forte.

    Infelizmente, as opções que exigem o mínimo de reflexão a respeito de qualquer coisa são as escolhidas. Imagino que deva sobrar mais tempo para fotos inúteis e momentos não aproveitados nessas circunstâncias.

    Abraços,
    Sarah

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    1. Isso Sarah,

      O espaço virtual, bem como as outras mídias, esta sendo preponderantemente usado para bobagens.
      E vejo a internet de outro modo. Como nao há a figura do produtor (como existe na televisão), nós, simples mortais, podemos dar o tom da música e de fato, promover uma mudança relativa aos usos que se tem feito do espaço.
      Sem censura ou ditaduras é claro.

      bjao

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  2. Nando, parabéns pela iniciativa. É de se pensar…

    Por outro lado, não é contraditório um movimento contra as redes-sociais ser divulgado e somente possível de ser realizado, justamente, através das redes-sociais? Sou a favor, do não excessivo e não fútil uso desses meios (questões, eu sei, subjetivas), mas não consigo deixar de pensar sobre essa possível contradição que, no mais, se for verdadeira, des-legitima todo o movimento. Afinal, são as redes-sociais o “problema”, ou o uso que as pessoas fazem de tais meios de comunicação? A privacidade, não depende e está muito mais atrelada à quantidade de informação que a própria pessoa (que faz o cadastro se quiser, e quando quiser) disponibiliza em rede? O fato de as pessoas terem necessidade de se mostrarem felizes e normais para outras, só denuncia, desde há muito tempo (bem antes de redes-sociais-virtuais existirem) o medo, dentre outros sentimentos que surgem no encontro e da relação com o outro, concorda? Com a máquina, pensamos, a manipulação do “outro” (ou seja, a própria máquina), é mais fácil – e isso pensam a grande maioria.

    Achei legal que em outro blog, no Sinapse Oculta, você escreveu um texto falando sobre o filme Avatar, e que acho tem grande relação com essa questão. No filme, os humanos ‘possuem’ os seres azuis para manterem contato com os outros seres azuis… É engraçado pensar que, pelo menos lá, tem-se um contato “virtual” mas também corporal e direto. Pior, somos nós, que quase inutilizamos nosso corpo (sentados que estamos a digitar), e não mantemos outro tipo de contato senão através de telinhas que piscam com a foto da outra pessoa… Enfim, uma merda mesmo. Mas volto a te perguntar, sobre essa possível contradição em se movimentar dentro de (e inserido em) redes-sociais, contra as redes-sociais…(?). Cá estou a pensar, como diz o portuga.

    Abraços,
    Guilherme

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    1. Isso!
      Paradoxal mesmo.
      O movimento nao é nada diferente de outros movimentos paradoxais.
      A idéia nao é conscientizar ninguem. A ideia é de juntar pessoas que pelo menos pensam no assunto e, se puderem e tiverem coragem para abrir mão do prazer de divulgar sua vida besta sem sentido para uma comunidade virtual sem sentido, participar mesmo!
      Valeu

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  3. .

    olá!

    Redes sociais são a interação entre pessoas e a internet, via mídias sociais (facebook, youtube, myspace e outros) são apenas ferramentas.

    Uma rede é composta por pessoas. A internet e, por consequência as mídias sociais, existem há cerca de vinte anos. Uma coisa não depende da outra, a internet é apenas o facilitador. Se você sair no portão e bater papo com o vizinho, está instalada uma rede. Veja mais em http://escoladeredes.ning.com.

    abs.

    Edna

    .

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  4. Após a intervenção de mais uma das centenas de aplicações do Facebook no meu perfil decidi procurar se haviam mais pessoas com o mesmo sentimento de abuso de confiança e ‘invasão de privacidade’ por estas redes sociais via Internet, e eis que encontro este texto a sugerir um movimento, o qual me disponho desde já a fazer parte e ajudar no que puder. A meu ver pior que a exposição voluntária que os utilizadores fazem das suas vidas são as várias aplicações que incentivam e criam problemas entre amigos e cônjuges. Actualmente estes sites aproveitam-se da curiosidade dos utilizadores e já cobram para mostrar determinadas informações! Acredito plenamente que as redes sociais adicionem muitos mais problemas do que propriamente ‘vantagens’ à vida do ser humano moderno, está na altura de alguém meter um travão nisto. Frases como ”é dever dos pais vigiar os filhos” e ”Só se inscreve quem quer, e estando lá têm que se sujeitar” não devem ser tomadas como normais, há de facto o dever dos pais de vigiar os filhos mas deviam ser precisas mais credenciais para menores que tal quanto eu sei se podem inscrever em qualquer tipo de rede social sem qualquer verificação. Já quanto à voluntariedade da ‘coisa’ ela acaba por não ser bem assim, amigos querem ver o que os outros fazem por lá, namorados(as) querem ver o que fazem os seus amados por lá e um puxa o outro e acabamos numa fase em que toda a gente está lá mesmo que seja contra os princípios destas empresas. Ouço consecutivamente pessoas a criticarem o Facebook pelas suas invasões, e ninguém faz nada. Na Europa eu esperava que a regulamentação fosse mais exigente, mas pelos vistos este será o preço a pagar por tantas liberdades, um dia quem sabe seremos como os Americanos, pessoas cada vez com menos princípios.

    Abraço,

    Tiago

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    1. Tiago,
      Muito bem colocado. Embora não acredite em regulamentação, creio que isso deverá ser feito à menores de idade de forma realmente eficaz. Sabe, penso que a raiz do problema esta no desejo moderno de superexposição, para o qual o remedio é mais complexo.
      Obrigado

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  5. ADOREI SEU TEXTO EXPRIME MUITO O QUE VC QUER DIZER E É UM OTIMO ARGUMENTO PARA CONTRA ESSA “OVERDOSE”, POREM ACHO QUE OS AVANÇOS DA TECNOLOGIA NOS TEMPOS DE HOJÊ SÃO BONS E PASSA A SER UM MOTIVO RELEVANTE PARA NÃO COMEÇAR ESSE MOVIMENTO ATÉ POQ TALVEZ PERDERIA.. MAIS COMO CADA UM TEM SUA OPNIÃO E TEM DIREITO A ELA ACHO CONCERTEZA QUE VOCÊ DEVERIA PRESERVAR A SUA E COLOCA-LA EM PRATICA.

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  6. Até que enfim encontrei alguém com coragem de divulgar a mesma ideia que eu tenho do assunto! E já fui adepta de redes sociais por livre e espontânea pressão sociológica, e depois de me questionar sobre as mesmas questões que você aborda em seu texto, decide por não tê-las mais em minha vida. E a vida é melhor assim sem elas. O ‘uso consciente da internet” talvez até pareça um discursso pronto, mas é muito válido. Os avanços tecnológicos, inclusive a internet, são indispensáveis para o desenvolvimento humano. Profissionais da comunicação, como no meu caso, já dependem desta ferramenta para debater um assunto em sociedade. Porém, penso que a internet tem de ser vista exatamente assim, como um espaço aberto ao debate, à busca de conhecimento e informação humana. Mas infelizmente as redes sociais estão ultrapassando as barreiras da realidade virtual e a realidade presente. Vejo que as pessoas estão cadas vez mais se rendendo aos encantos da autoexposição e “entregando” suas informações pessoais para quem quiser tê-las. É um artíficio consciente que já está se transformando num exercício inconsciente, e é neste ponto que mora o perigo. Criou-se uma dependência das redes sociais, que fazem dos que estão inseridos nelas “pessoas mais legais”. Qualquer um pode ser testemunha desta realidade absurda. Basta se atentar a detalhes como quando um fato só se torna assunto porque está na rede. Ou quando você só lembra que hoje é aniversário de seu amigo de infância quando é notificado pelo Facebook/Orkut/E os demais. Ou, como você exemplificou, quando sua viagem só vale a pena quando alguém comenta na foto que fez durante o passeio. Isso é um absurdo sem tamanho! Onde está o limite? Já vi pessoas colocarem telefone, CEP e seus endereços residênciais em redes sociais. Por mais que existam opções de privacidade, sabemos que esta é uma “falsa proteção” ao usuário, pois existem hackers por aí que não só roubam senhas de contas bancárias automáticamente. Concordo com tudo o que você abordou! Estamos virando fantoches, e estamos sendo manipulados o tempo todo pela vaidade humana. Os poucos que tem coragem de admitir a si mesmo que as redes sociais estão corrompendo a realidade, que tomem a atitude mais consciente que é se retirar delas! Divulgar esta ideia talvez pareça loucura, pois é só dizer a alguém que você não tenho Facebook que você será tratado como “anormal”. Mas acho que essa é uma revolução, ter pessoas pensando o mesmo já é a prova de que algo deve ser feito e que não somos todos facilmente manipulados. Ainda tenho esperanças de um mundo melhor, e porque não uma discussão do poder político embasada no movimento contra as redes sociais? Seremos taxados como chatos, sim, já somos. Porém somos pessoas reais, lutando pelo direito de viver uma vida real.

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  7. Meus parabéns pelo seu raciocínio, concordo plenamente com sua linha de pensamento, seja qual for a rede social, ela está “tirando” a privacidade das pessoas. Como vc disse tem gente querendo aparecer, tem gente q é fofoqueira, tem gente de todo tipo. De tanto vc se expor isso uma hora pode fazer mal a sua vida. Nao consigo ver utilidade nas redes sociais, criei o Facebook, porém nao vai durar muito, pois nao gostei, praticamente ja tinham meus dados com eles so precisavam q eu acc entrar na rede deles. De alguma forma esta expansao desnecessaria deve parar. Tudo de mais faz mal.

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  8. Olá, Luis Fernando !
    É bom ver que compartilhamos da mesma ideia.. Eu possui uma conta no Facebook – criada por pressão de alguns colegas rs – e mantive por alguns meses, com o objetivo de me socializar e manter contato com as pessoas. Mas a cada falsidade e hipocrisia que eu via, com mais repulsa eu ficava ! As redes sociais, ao contrário do que muitos pensam, têm afastados as pessoas, condenando-as a viver presas em máquinas. Isolando-as do mundo real, da beleza da natureza, da naturalidade da vida.. Estou contido nessa luta.. Espero encontrar, futuramente, um lugar onde mais pessoas queiram aderir a essa força e viver de modo mais natural.
    Abraço !

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  9. Olá rapaziada, então, estou com vocês nessa luta, venho por anos parecendo o chato pra todo mundo SEMPRE criticando as redes sociais.
    Para mim é nítido o quanto elas vem afastando as pessoas, ao invés de torna-las mais próximas. Pessoas se juntam com outras para ter fotos em grupo, ou para conseguirem algo.
    Fora a questão da intimidade TOTALMENTE EXPOSTA.
    Acredito que a super exposição provoca sentimentos competitivos nas pessoas. Causam ansiedade e sentimentos de impotência. Atualmente no Brasil, o Rivotryl, um remédio para controle emocional, está em segundo lugar dos mais vendidos, perdendo apenaa para o anticoncepcional.
    O número de depressões cresce gradativamente a cada ano, não só no Brasil como no mundo. ÓBVIAMENTE que todo esse mal não é causado apenas pelas redes sociais, mas acredito que elas tenham sim uma grande influência nessas questões.
    No mais, podem contar comigo.

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  10. Também sou contra as redes sociais. Muita exposição desnecessária que “aproxima os zumbis” virtuais e afastam as pessoas reais.

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