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REFLEXÕES SOBRE A EDUCAÇÃO


Seria preciso uma revolução radical na educação?

Momento sem precedentes histórico: a internet se populariza em todo mundo e passa a ser utilizado com principal meio de comunicação, entretenimento e pesquisa. Diferentemente da televisão, a internet é interativa. Relativamente, o sujeito passa a ser mais ativo. Pode publicar vídeos, fotos, músicas e textos, que antes eram atividades restritas aos meios apropriados de comunicação como jornais revistas e emissoras de televisão ou radio.

Isso revoluciona o modo com que nos relacionamos com as máquinas e com o conhecimento.

Dependemos profundamente de computadores ligados em rede para quase todas as atividades cotidianas (bancos, lojas, restaurantes, sistemas de pagamento online, administração pública já aderiram à sistemas informatizados) e nos sentimos de fato desamparados quando ocorrem falhas no “tal sistema” que nos impedem de realizar alguma atividade cotidiana. Quando chegamos ao caixa de um banco e somos avisados que o “sistema caiu”, sentimos isso na pele. O sistema passa a ser sinônimo de uma autoridade maior, sobre a qual não podemos atuar e nem questionar.

Por outro lado nunca foi tão fácil e rápido pesquisar sobre os mais diversos assuntos, o que vem ocasionando uma revolução no psiquismo humano, nos oferecendo um novo parâmetro de como nos relacionamos com o conhecimento e com a educação. Essa revolução acelerou a crise nos processos educacionais. O papel do professor e da escola nesse novo mundo está sendo posto a prova, e penso que os velhos modos de dar aula e conceber a escola, tanto como espaço físico como espaço da relação humana precisam mudar urgentemente.

Escola ou hospício?

Vejo que uma das soluções modernas para a educação conta como algo semelhante ao que ocorre com as internações psiquiátricas. Foi se definindo no Brasil uma politica de redução do numero de leitos em hospitais psiquiátricos (o importante movimento antimanicomial iniciado no Brasil em 1987), pois o tratamento desses pacientes não era efetivo e ia contra os direitos humanos. Sobre o pretexto de “tratar” os doentes psiquiátricos, havia na verdade maus tratos e uma verdadeira prisão, uma cadeia de pessoas psiquicamente indesejadas.

Vejo que algo semelhante ocorre nas escolas. Tem se cogitado a ideia simplista de que os alunos devem ficar mais tempo na escola. Pode parecer bom, mas isso soa como uma internação. Bom para os pais que ficam livres dos filhos e da responsabilidade. Bom para os professores e escolas pois ganham mais com um período integral… Bom para os alunos? E a vida lá fora? E o convívio social? Deseja se proteger as crianças de uma espécie de “homem do saco” que fica nas cidades, e metê-lo dentro de uma escola despreparada, chata, e amplamente infectada por métodos educacionais retrógrados.

Uma nova era das relações entre as pessoas?

Novas empresas, como a Google, exigem produção e isso é óbvio. Mas sabem muito bem que exigir produção não tem muito a ver com uma carga horária excessiva de trabalho e tão pouco pressionar seus funcionários pelo resultado não final do mês. O ambiente de trabalho desta empresa conta com salas de estar onde os funcionários podem ficar jogando vídeo games, lendo livros e revistas ou trocando ideias mesmo. Há espaço para que eles se dediquem a projetos pessoais. Outras empresas também estão repensando a questão da presença física do funcionário no local de trabalho, e algumas já adotam a possibilidade do funcionário trabalhar em casa por algum período de tempo.

O que falei acima vai parecer um absurdo para Henry Ford (criador do fordismo) e para diretores e professores de escola da época das ditaduras latino-americanas, pois a liberdade e o ócio, para nós, significa automaticamente, alguma coisa ruim, algum tipo de “diabo”, algo que deve ser evitado a qualquer custo (“cabeça vazia oficina do diabo”).

Uma escola deve constituir um espaço para o novo para a criação. O que é bastante difícil. Porque o professor se considera dono de um saber que não possui de fato e que é de longe a verdade ultima. E então o aluno, que é naturalmente curioso, vai se petrificando, vai paulatinamente perdendo o interesse pelas coisas do mundo, pois a escola não faz nada mais do que fornecer verdades empacotadas.

Uma onda de medicalização de tudo

A psiquiatria tem uma posição complicada. Exige-se dela cumprir a ingrata missão de classificar o ser humano em normais ou doentes mentalmente. Essa é uma discussão secular. O que precisamos saber é que as classificações de doenças são criadas.

E abaixo vai um fragmento de um debate entre Sidarta Ribeiro e Mario Eduardo Costa, com o tema “Neurociências e Freud” promovido pela Revista Fapesp (http://www.revistapesquisa.fapesp.br/pdf/revolucao_genomica/sidarta.pdf )

O que Thomas Szasz vai levar às últimas consequências (Szasz é vivo ainda), quando fala do mito da doença mental. Quando fala que os critérios de definição de doenças mentais são éticos e sociais, e não médicos. Ou seja, para ele trata-se de uma má metáfora, mas com consequências práticas e políticas muito intensas. Ou seja, a gente não pode utilizar a noção de doença mental impunemente.

Por exemplo, até a década de 1970, as classificações psiquiátricas oficiais colocavam o famoso debate, a questão da homossexualidade. Até os anos 1970 um comportamento sexual homossexual preenchia o critério de um transtorno psiquiátrico. No famoso Congresso da Associação Psiquiátrica Americana de 1964, quando iria se debater se na próxima organização de critérios diagnósticos a homossexualidade permaneceria, o Congresso Psiquiátrico é invadido pela sociedade civil. Vêm representantes dos grupos Vêm representantes dos grupos das liberdades democráticas, Tradição Família e Propriedade, imprensa, igrejas, jornais, enfim, toda a mídia, colocando em questão em que medida os psiquiatras têm mais autoridade para falar do comportamento homossexual como patológico do que o resto da comunidade.

Eu encurto a história para vocês, mas basicamente isso é decidido nos votos. Nós vamos ver se essa comunidade aqui decide ou não se vamos considerar homossexualidade uma doença, um transtorno psiquiátrico ou não.”

A possibilidade de consultarmos os médicos para dizerem algo sobre a natureza individual de um aluno nos traz certo conforto. Afinal de contas aquele garoto que não parava na sala de aula, foi diagnosticado como possuindo o TDHA (Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade). Ele então vai ser medicado e pronto. Fácil assim. E eu espero que a psiquiatria saiba o que está fazendo, ou seja, que tenha de fato segurança quanto aos possíveis problemas de desenvolvimento que poderá causar neste garoto por meio da atuação farmacológica, tendo como pressuposto uma “doença” que talvez tenha mais base numa escolha social-cultural do que em fatos científicos.

A hiperatividade e o déficit de atenção pode ser consequência de outros fatores. Como por exemplo, a falta de perspectiva de se viver em um mundo pronto e acabado, em que nada mais se pode fazer em termos de inovação pessoal; a alta quantidade e péssima qualidade de informações e de marketing dirigido a esta faixa etária e a falta de tempo e vontade dos pais de serem, de fato, pais e não apenas ditadores de regras que ouviram no noticiário.

A psicanálise como modelo?

A psicanálise não deixou de dar suas contribuições à educação e o fez de maneira indireta. No início, Freud não estava muito preocupado com tal assunto, mas a transmissão da “arte de psicanalisar” (ensino da psicanalise) é assunto importante. Como se ensina psicanalise?

Cada centro, núcleo ou sociedade de psicanálise que forma novos profissionais, tem ampla liberdade em definir como fará isso e há muitas variáveis. Há, porem, um consenso, um plano básico que parece balizar todas as escolas de formação: Estudo teórico, supervisão clínica e análise pessoal.

Então o futuro analista passa por aulas teóricas, dadas em grupo, mas as outras partes desse tripé de formação (supervisão e análise pessoal) são realizadas individualmente, cara a cara. A formação psicanalítica se assemelha a transmissão de conhecimento que se dá de pai para filho, e por isso é efetiva.

O que ocorre nas nossas escolas é o contrario: salas lotadas, professores e alunos desinteressados, e por consequência um ensino que não acontece.

Você pode pensar que seria um absurdo termos salas de no máximo 10 alunos, e elaborar novas metodologias de ensino. Eu penso que isso seria a única solução, afinal de contas no Brasil não falta dinheiro publico nem professores, tão pouco espaço para novas escolas.

Alguma solução?

O estudo da epistemologia das ciências nos ensina certas coisas que podem nos auxiliar bastante no meio desse cenário aparentemente devastador em que o abismo entre gerações parece intransponível… e cada vez mais os jovens nos parecem extraterrestres. O Falsificacionismo de Karl Popper nos diz que uma hipótese pode ser, no máximo, falsificada, falseada. Isso significa que nossas hipóteses sobre como o mundo funciona, não podem ser tidas como totalmente verdadeiras. Essa ideia serve para algumas coisas na educação

1-    Produz uma atitude no professor de que ele nunca, jamais saberá a verdade última (a verdade última é assunto do pensamento religioso que não necessariamente deva ser desconsiderado); e isso muda a relação que ele, professor, tem com os alunos, e vice e versa;

2-      Produz no aluno a ideia de que ele pode descobrir coisas e participar da construção do conhecimento humano;

3-       Valoriza o erro como principal forma de aprender e construir o conhecimento;

4-    Permite ao professor considerar o aluno e a si mesmo como um ser humano curioso e angustiado com o mistério de estar em um mundo aparentemente ordenado, mas fundamentalmente, a ser constantemente redescoberto e reinventado. Com essa liberdade angustiante, o método de avaliação pode mudar, sendo incluídos outros parâmetros de medida.

 

 

 

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