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PSICANÁLISE NA NOVELA


Na novela das nove na TV Globo (Passione), além de termos os velhos clichês de sempre, percebi uma trama até que bem bolada e exemplos simplificados, mas bem interessantes, de como se desenvolve um processo psicanalítico. Flávio Gikovate, um psiquiatra famoso e competente que aparentemente não se liga em nenhuma corrente psicológica, me faz lembrar de um psicanalista. Gérson, o personagem perturbado por um segredo obviamente sexual, inicia a sessões ainda encabulado. Aos poucos a dupla (analista/analisando) vai funcionando, e os dois passam a ser cúmplices. Gérson, enfim, revela seu segredo de que fora abusado na infância por uma mulher gorda, fedida e ensebada que o beijava. Atrevo-me a pensar na psicanálise porque Flávio Gikovate se utiliza de interpretações freudianas como: “A criança registra o ato sexual mais como uma luta do que como uma forma de carinho e de prazer”.

Interessante pensarmos que por mais que a farmacologia tenha se desenvolvido, psicanalistas e psicólogos continuem a ter seus empregos. O simples ato de falar e confessar certos episódios da vida parece ter um efeito terapêutico; parece nos livrar de alguma coisa, da qual não sabemos muito bem. De fato, para você que nunca se aventurou em um consultório de psicanálise, fica difícil acreditar que simplesmente falando coisas de sua vida você irá se livrar de sintomas e perturbações que lhe acompanham há anos.

Por se tratar de uma experiência bastante pessoal, é preciso experimentar tal situação para comprovar sua eficácia. Artigos científicos tem mostrado a eficácia de tratamentos psicoterápicos, incluindo a psicanálise, os comparando ao tratamento farmacológico. E eis outra questão: A psicanalise é uma forma de cuidado da saúde? Poderia ser então classificado como um serviço de saúde? Ao que tudo indica não.

A psicanálise como teoria e técnica, se insere em um terreno multidisciplinar. Quero dizer que um psicanalista necessita de conhecimentos mais aprofundados em ciências biológicas, antropologia e artes do que em medicina (isso é dito por Sigmund Freud em 1926). Fica reservada ao médico então a cura de doenças, receita de fármacos e o estabelecimento de diagnósticos. Fica reservada ao psicanalista a análise da vida mental, sem promessa de cura, o fortalecimento do pensamento e adaptação do sujeito a si mesmo.

Na psicanálise (a mais antiga e tradicional psicoterapia) encontramos hoje um oásis meio a um deserto de profissionais tecnicistas que insistem em “informar o paciente” e “regulamentar” a vida dos outros (que para mim é um dos maiores males modernos). Uma boa imagem para definir o processo psicanalítico é a de duas pessoas caminhando em meio a um terreno desconhecido. O paciente vai à frente e o analista vai logo atrás. Sem dar dicas ou conselhos. Porque a vida é propriedade exclusiva de quem vive, não tem manual de instruções e tão pouco uma lógica a se considerar… e a felicidade pode ser um algo bastante relativo.

Pois é. É difícil explicar pra que serve a psicanálise, pois ela não se define como um tratamento de saúde clássico e é subjetiva demais, e por isso, ironicamente, funciona. Pelo simples fato de que seres humanos são seres subjetivos (quero dizer, o contrario de objetivo).

Gérson da novela que o diga. Seu segredo inconfessável tornou-se agora apenas um segredo guardado entre as quatro portas daquele consultório. E isso faz muita diferença.

 

 

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