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UPP: CRIANDO A ELITE DA TROPA DE ELITE


“Até o fim de 2010, creio que haverá condições logísticas de ocupar muitas comunidades. Mas como tenho repetido sempre que sou interpelado: ou a sociedade abraça e acolhe estas áreas ou nada vai mudar de fato. Portanto, a polícia faz um apelo: subam o morro, ele é da cidade.”

(José Mariano Beltrame, Secretário de Segurança do Rio de Janeiro, 10/9/2009)

“E viveram felizes para sempre…” Essa frase finaliza muitas das histórias que ouvimos desde criança, mesmo de maneira implícita, em um “happy end” de uma comédia romântica. A revista Época (edição de 27/11/2010) coloca em letras garrafais “Vamos Vencer o Tráfico” e a caveira que simboliza o Batalhão de Operações Especiais (BOPE). A dupla dinâmica do Programa Fantástico (28/11), Zeca Camargo e Patrícia Poeta, e seu comentários dominicais dilacerantes, colocam que a casa de um dos chefões do tráfico “tinha até banheira de hidromassagem”, que de acordo com os apresentadores, “Isso é muito luxo.”

O tráfico de drogas e as drogas em si constituem o grande demônio moderno. Um mal palpável, um demônio que invade as casas, mansões e favelas e rouba nossos entes queridos; de maneira quase idêntica as possessões demoníacas na idade média. Com algumas diferenças: Esses “demônios em pacotinhos” constituem um dos mercados mais lucrativos do mundo e constituem a maior forma de prazer alienado que se conhece.

Prazer alienado é aquele que não necessita da presença do outro, ou não advém de nenhuma forma de relação social. Por exemplo: Como obtemos prazer e satisfação? Em qualquer maneira que se possa pensar, há uma relação direta ou indireta com outra pessoa ao com a sociedade. No sexo, não há necessidade de mostra a relação. O sexo é totalmente dependente de “um outro”. Você compra um carro de milhões de dólares, e sente-se extasiado na verdade porque perante o olhar do outro, você passa a ser admirado e prontamente identificado como uma pessoa especial, querida e amada. Quando você recebe uma premiação ou promoção no trabalho, a percepção que você tem de você mesmo (sua autopercepção ou, pela psicanálise, seu narcisismo) produz um prazer imenso e sustentável. Quando um sujeito ingere uma droga, esse êxtase ocorre de maneira instantânea e relativamente fácil. A droga possibilita uma satisfação antes só permitida na relação social, na relação com o outro. As drogas são perigosas por isso. Oferecem prazer alienado e insustentável. Enquanto não tocarmos nesse ponto em politicas públicas e saúde e educação, não vamos resolver nenhum tipo de problema de abuso de substâncias.

Ha três maneiras de se acabar com o trafico de drogas: (1) Eliminar a demanda; (2) Eliminar a produção e (3) Legalizar a produção e consumo. As opções 1 e 2 são impossíveis e qualquer tentativa de atuação por essas vias, produz um efeito efêmero e custa caro aos cofres públicos. Muito embora seja a melhor forma de propaganda. Não há ser humano sem consumo de alguma substância psicoativa, álcool, maconha, nicotina, etc. Isso é um fato corroborado pela história. O que se pode e deve fazer é controlar o abuso e não atuar no sentido de acabar com qualquer tipo de utilização de droga. Exemplos de atuações nesse sentido são o fim da propaganda de cigarros e a recente lei antifumo das quais discordo, mas possuem evidente efeito. A opção 3 de legalizar a produção e consumo seria uma atitude que, em longo prazo, terminaria de vez com o tráfico, pois as drogas ilícitas passariam a ser produzidas de forma legal, por empresas e consumidas de forma não criminalizada pela população. Mas pouco se sabe sobre os efeitos numa população enorme e ignorante como a do Brasil.

Parece que o que está em jogo nessa guerra civil, não é o bem estar da população que é amedrontada pelas drogas, e sim que os traficantes fiquem lá onde estão, no morro, e não incomodem Copacabana, Leblon e que não apareçam no New York Times. Os morros e as favelas constituem um esgoto invertido, um esgoto no topo de uma montanha. Nós desejamos que as favelas fossem subterrâneas, que não aparecessem, que silenciassem, que deixassem a madame passear no Leblon com seu cachorrinho de R$ 1.000,00 ao som da bossa nova em seu iPod. Mas tenho a sensação de que a coisa está mudando.

Futebol une policiais e crianças no Batam

Salão do BOPE foi palco para uma apresentação de coral do Morro do Borel

É muito interessante ver pelo cinema que o Rio de Janeiro possui uma tropa de elite, cujo treinamento é árduo e produz máquinas de ataque e repressão. E é emocionante ver que o mesmo BOPE – no bom sentido, truculento – começa a se abrir para novas experiências como as UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora) desde 2009, cuja instalação foi o estopim para essa guerra civil.

Quero dizer que o ponto fundamental está sendo questionado e atacado agora, sendo imediatamente combatido pelos traficantes que inconscientemente sabem que quanto maior forem a miséria e o desamparo por parte do estado e da sociedade nos morros, maiores serão seus poderes. E o ponto fundamental é o amparo. É aquela sensação bastante subjetiva de que estamos seguros por fazer parte de um grupo ou sociedade. Coisa que na favela falta e que o Estado começa a perceber. Termino repetindo a frase genial do Secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame: “Subam o morro, ele é da cidade.”

 

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