Conhecendo o Neuroscience: impressões de um brasileiro sobre o mais importante congresso de neurociências


por Rafael Naime Ruggiero

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Depois de terminado, cinco dias de neurociências, vôos de avião, muita batata frita, café aguado, empolgação, fuso horário, cansaço, muita conversa e inglês macarrônico: o que dizer do Neuroscience, o maior congresso de Neurociências do mundo?

Primeira e principal impressão: organização. Parabéns a todos os envolvidos na realização desse grande evento – grande no sentido literal já que foram mais de 31.000 inscritos no congresso. Da retirada do material e do crachá de inscrição no dia da abertura à retirada nos últimos minutos do congresso (atraso meu) do comprovante de participação, quase não enfrentei fila, não passei por nenhum aborrecimento, e todos os processos foram feitos de forma rápida, eficiente e bem informada.

Não quero gastar muito tempo listando todas as situações bacanas que aconteceram, mas não posso deixar de citar três exemplos que achei surpreendentes e podem formar um quadro do estado de organização do evento para os que não estavam lá:

1) Logo quando chegamos fomos fazer a rotina de praxe de todo o congresso pegar o material – que geralmente é composto com a programação do evento, mais alguma publicidade e blocos de anotação – e o crachá para sermos identificados ao longo dos cinco dias. Já esperava a fila habitual que acostumei a enfrentar nos congressos sobre solo pátrio: 30-40 minutos aguardando. Que ótima surpresa quando em aproximadamente 5 minutos eu e os dois colegas que me acompanhavam já estávamos com tudo em mãos. Você chegava era orientado por funcionários a colocar seu nome no computador ele automaticamente imprimia seu crachá que era entregue por uma outra funcionaria. Nada de funcionários mal instruídos procurando seu nome, ver se você tinha pago, ou o diabo a quatro; tudo automatizado.

2) Esse me impressionou pela inovação. Em dois pontos do enorme centro de convenções (pelo menos eu só vi dois) havia um conjunto de 5 telões passando uma série de nomes em ordem alfabética. Sob os telões uns 6 computadores com os congressistas utilizando-os para deixar recados a colegas ou interessados. O local era chamado de central de comunicações se não me falha a memória e você podia deixar qualquer recado para outro congressista, ele só teria que ver seu nome o telão digitar o código dele presente no crachá e teria acesso ao recado que seu colega havia deixado. Uma idéia muito útil em um congresso grande como aquele.

3) O último me impressionou pela atenção aos detalhes e acho que exemplifica bem o grau de organização do congresso. Em dois locais no centro de convenções havia uma enorme cuba de vidro contendo centenas de cordões para prender o crachá no seu pescoço. Assim, caso o seu tivesse sido danificado, perdido ou caído na privada você poderia pegar outro ali sem problemas.

A pergunta que podemos fazer é: o que falta para os congressos organizados aqui no Brasil terem um nível de profissionalismo e organização desse porte? Por que mesmo tendo um sexto do tamanho do Neuroscience os congressos brasileiros são menos organizados.

A impressão primordial que fico do Neuroscience é que os organizadores têm uma grande experiência de preparo nesse tipo de evento. É surpreendente como as tarefas comuns de um congresso são executadas de maneira rápida e eficiente e como muitos detalhes pequenos são levados em conta e acabam transformando o evento em algo muito admirável. Na realidade a impressão que tenho é que isso vem com um amadurecimento na preparação, afinal esse já é o 40º encontro organizado em nome da SFN e somente com um longo período de aprendizado é possível realizar um evento deste porte.

Uma das maiores lições que podemos tirar dos encontros é aprender com os erros e aprimorar coisas que não funcionaram de maneira eficiente. Em minha experiência em congressos nacionais vejo alguns erros se repetindo anos após ano sem que haja uma preocupação em ouvir os participantes a respeito dos pontos negativos do evento organizado.

Outro ponto essencial é o da infra-estrutura preparada para o congresso. Quando digo infra-estrutura me refiro tanto ao local escolhido para organizar o evento quanto ao preparo da cidade em receber os congressistas visitantes. Apesar de ter muitos inscritos o enorme local escolhido e a quantidade de eventos ocorrendo simultaneamente davam muitas vezes a impressão de se tratar de um congresso de pequeno porte, pois você não presenciava um grande conglomerado de pessoas. Além disso, o local escolhido para apresentação dos painéis era enorme o que possibilitava, apesar do enorme número de painéis apresentados, uma grande distância entre as fileiras de painéis possibilitando um grande espaço de fluxo e em poucos momentos se via uma grande amontoado de pessoas e uma dificuldade de se comunicar por excesso de barulho e pela atenção focada em desviar de corpos.

O que noto em congressos de grande porte realizados no Brasil é que ano após ano é destinado um pequeno espaço para apresentação dos painéis. Isso cria uma grande densidade de pessoas em um pequeno espaço resultando em um desconforto generalizado e um ambiente nada propício para a troca de idéias e o foco atentivo prolongado. Ficar duas ou três horas vendo painéis científicos é um trabalho forçoso que demanda muita energia e atenção, distrações como excesso de barulho, desviar-se de outras pessoas e ficar espremido entre dois painéis não contribuem em nada para isso. O que mais me espanta é que isto é feito com conivência de neurocientistas que estão literalmente carecas de saber isso.

Destaque à parte para San Diego que é uma belíssima cidade e realmente apresentava infra-estrutura adequada para receber um evento de grande porte como o comentado. A cidade possui um grande número de hotéis, meios de transporte público baratos e de fácil acesso, diversas opções de lazer e de alimentação.

Outro ponto bastante notável no SFN é o preparo dos funcionários que estão ali para receber os congressistas. Estão sempre prontos pra te ajudar com muita gentileza e educação e principalmente todos são muito bem informados em relação ao funcionamento do congresso. Todos sabem as localizações das muitas salas e saguões do centro de convenções o que facilita bastante se localizar e achar aquela palestra que você quer tanto ver e começou há dois minutos.

Em relação aos pontos negativos existem alguns pequenos. Primeiro era muito difícil achar um relógio pelos saguões e corredores do centro de convenções e eu como não sou adepto do relógio de pulso era obrigado a estar sempre pedindo pro transeunte mais próximo para me atualizar do fuso horário local. Outro ponto negativo é que perdi algumas palestras bem interessantes que queria ver porque as salas já estavam lotadas. Acredito que eles poderiam ter escolhido algumas salas maiores para eventos que possuíam um interesse maior do público. Entretanto não houve uma consulta prévia (pela internet) sobre a preferência dos congressistas pelos cursos e palestras oferecidas, fato que os congressos nacionais de que participei costumam fazer e era esperado de um congresso desse porte. De último, ressalto que não teve em nenhum momento algum tipo de coffee break oferecido pelo SFN, coisa de praxe em nossos congressos. Realmente acredito que não deve ser uma tarefa fácil organizar um café para 30.000 pessoas. Por outro lado em vários locais do congresso se encontravam barraquinhas de Starbucks e outras filiais de café, comida mexicana, japonesa, vegetariana e etc. prontas para abastecer os estômagos dos congressistas.

Em suma tirando pequenos contratempos o Neuroscience 2010 foi um congresso extremamente bem organizado e planejado ficando nítido o quanto ainda temos que aprender com a organização norte-americana.

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