BACANA MARAVILHOSO


a língua não esconde

Vou começar 2011 mostrando a vocês algo que vem me incomodando há tempos e refere-se a um tema caro na psicanálise: A psicopatologia da vida cotidiana, dos pequenos fatos do dia.

A TV constitui um dos grandes meios de se saber o que as pessoas pensam e fazem. Como de costume na minha profissão de psicanalista, em que damos maior importância à linguagem, percebo certos vícios e alguns vírus de linguagem que nos mostram certas tendências de pensamento e comportamento. Os adjetivos me chamam atenção porque são o modo como nós qualificamos certas experiências e objetos. São correlatos verbais importantes da nossa capacidade mental de filtrar a realidade e de nomear e qualificar o que é armazenado.

Entre 2008 e 2009 surge de maneira maciça a utilização da expressão “maravilhoso”. Tudo passa a ser maravilhoso. “Esse programa maravilhoso”, “Essa pessoa maravilhosa”, “Esse sorvete maravilhoso” e por aí vai. Pensando bem: Quando definimos algo como maravilhoso, estamos definindo tal coisa ou evento como algo extremamente bom, não comum, que extrapola qualquer mediocridade. Seria um termo para utilizarmos em poucos momentos, poucos momentos de extrema qualidade. Então, se tudo passa a ser qualificado como “maravilhoso”, perde se o meio termo e uniformiza-se a capacidade de qualificar experiências e objetos. Definir tudo como “maravilhoso” expressa a pobreza vocabular em que nos metemos, depois que o ensino brasileiro foi destruído. Expressa também a falta de discernimento entre emoções e episódios das nossas vidas, como se nossa vida fosse uma substância amorfa. Imagine só a vida de uma pessoa em que tudo é definido como maravilhoso. Eu lhes digo: Isso é possível. Basta tomar morfina diariamente, e tudo será maravilhoso.

E assim como em uma overdose da palavra “maravilhoso” um novo vírus linguístico figura no horizonte: A palavra “bacana”. A palavra bacana é dita com um ar nobre, como se o sujeito que a dissesse já tivesse passado por tudo de melhor e agora passa a comunicar as coisas… bacanas da vida. O bacana passou a ser uma expressão chique, coisa de gente bem resolvida e está na boca das celebridades de 5 minutos e de múmias televisivas tipo Hebe e Faustão. Se “maravilhoso” representa o êxtase completo de uma vida uniforme e entorpecida, o “bacana” representa a falsa modéstia de uma vida moderna e próspera que não necessita mais das coisas maravilhosas, apenas de coisas… “bacaninhas”.

Esses adjetivos viróticos que se transformam em vícios de linguagem, portanto, seriam consequência direta de um ensino de qualidade ruim que não capacita seres humanos em expressar emoções simples ou relatar episódios corriqueiros, e de uma vida medíocre que quer passar disfarçada de “maravilhosa”.

 

Anúncios

2 comentários

  1. Pois é, falta leitura. E não apenas dos alunos, os quais na grande maioria das vezes não têm o hábito de ler justamente por não serem devidamente motivados, na escola primordialmente é claro, já que em casa a TV é a mestra dos costumes e das opiniões, quando não das ideias; mas talvez o que é pior, também falta leitura da parte dos próprios professores, principalmente dos professores de ensino médio e fundamental, e isso pelos mais diversos motivos.

    Parabéns pelo texto, abraço!

    Curtir

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s