PSICOSSOMÁTICA (2) – RAÍZES DA IDEIA


o grego Hipocrates

Continuando nossa tarefa colocada no artigo da semana passada: Embora a pesquisa em psicossomática tenha origem recente, ela se relaciona com um dos mais antigos problemas do pensamento cientifico: o problema mente-corpo (Alexander, 1942). O grego Hipócrates (460–370 a.C), considerado o fundador da medicina ocidental, pressupunha em sua compilação de 153 escritos – o Corpus Hippocraticum, muitas concepções filosóficas, etiológicas e terapêuticas que fundaram a medicina moderna, se opondo a visão comum de causas sobrenaturais das doenças e, ao mesmo tempo, considerando a psyché (alma, mente) como possuidora de uma função reguladora e, portanto, inseparável do corpo físico. A doença surge da desorganização de uma intrínseca organização biológica (Volich, 2000).

René Descartes (1596-1650), considerado o primeiro filósofo moderno, deu contribuições que se colocaram na matemática, filosofia, epistemologia e ciências naturais, estabelecendo um método que propiciou o desenvolvimento e as bases da ciência contemporânea. Descartes é considerado um racionalista. Segundo o racionalista clássico (que se opõe ao empirista), os verdadeiros fundamentos do conhecimento são acessíveis à mente pensante. As proposições que constituem aqueles fundamentos são reveladas como sendo claras, distintas e indiscutivelmente verdadeiras pela contemplação e raciocínio cuidadosos. (Chalmers, 1976).

Além disso, Descartes nos apresentou o dualismo e o mecanicismo que, de acordo com Damásio (1996), constituíram erros fundamentais e decisivos porque se criou um conjunto de ideias acerca do corpo, do cérebro e da mente que, de uma maneira ou de outra, continuam a influenciar o pensamento e as ciências no mundo ocidental. O Dualismo é falso quando coloca estados subjetivos e qualitativos como algo acima da realidade e, portanto, fora do escopo da ciência; e estados físicos (por exemplo, evidenciados como processos fisiológicos) como os únicos possíveis de verificação consistente (Searle, 2007). Na medicina, essa visão que se propunha a ser um fundamento racional de toda ciência acabou por imprimir uma tendência a priorizar a clareza e a distinção do corpo e de suas funções, valorizando seu substrato físico em detrimento da experiência subjetiva (Volich, 2000).

A psicanálise de Sigmund Freud (1856-1939), que inicia seu desenvolvimento em fins do século XIX, retoma ideias hipocráticas da importância da psyché e da história do paciente na determinação de uma doença. Também retoma ideias da recente e inovadora teoria da seleção natural de Charles Darwin (1809-1882) que, além de ter sido um dos principais impulsos para que o jovem Freud seguisse a carreira de cientista natural e não de advogado (Gay, 1988), foi determinante no desenvolvimento nele, de uma visão sem misticismos e biologicamente fundamentada do ser humano. Aos poucos a psicanálise propõe uma mudança de paradigma com a descoberta do inconsciente e de uma teoria e método novos de investigação de processos psíquicos.

Os estudos sobre a histeria, em colaboração do psiquiatra francês Josef Breuer (1842-1925), propõem – além de uma volta à Hipócrates embora não declarada – que algumas doenças manifestadas organicamente que não possuem um diagnóstico fácil ou existente, podem ter sua etiologia ligada ou determinada pelo psiquismo do sujeito; que necessariamente faz parte do “todo” (holos) biológico. Ou seja, fenômenos psíquicos estão inseridos no campo biológico, existem como fenômenos e podem ser estudados. Em um movimento contrário ao pensamento da época a psicanálise veio jogar luz em processos pouco estudados e muitas vezes desprezados, como a própria histeria. Continuaremos semana que vem!

OBS: Para referências bibliográficas completas, entre em contato.

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