duvida

Regulamentação da Psicanálise e Charlatanismo


O LEITOR COMENTA

A população, em sua maioria, desconhece que não há legislação regulamentando a atividade profissional do “psicanalista”. Não é um direito do cidadão ser informado disso antes de se tratar com “psicanalistas”? Essa falta de legislação não está permitindo e estimulando o surgimento de Sociedades “Psicanalíticas” formadoras de “profissionais” extremamente despreparados e de charlatães? Se psicologia, sociologia e filosofia são definidas em lei, por quê a psicanálise não pode? Em todas essas atividades os profissionais estão sempre em contínuo aprendizado. Concluindo, essa demora das Sociedades Psicanalíticas tradicionais e sérias em apresentar uma proposta de legislação da psicanálise não piora cada vez mais o quadro, ao permitir o surgimento de Sociedades “psicanalíticas” espúrias? Por quê não analisar a sugestão de Jorge Forbes de uma “faculdade de psicanálise”?

SINAPSE OCULTA RESPONDE

Muito importantes suas considerações. Creio que uma pessoa que vá se tratar com um psicanalista tem sim o direito de saber tudo que sua curiosidade permitir e que o analista julgar necessário. Há recomendações sobre o inicio de um tratamento psicanalítico na obra “Novas Recomendações Sobre a Técnica da Psicanálise I”, S. Freud, Obras Completas, vol XII em que Freud recomenda certos caminhos que balizem a primeira entrevista. Como o tratamento psicanalítico necessariamente precisa de empatia mútua, é bastante recomendável que se mantenha uma relação honesta e digna com o paciente, e isso significa também responder a suas perguntas sobre a psicanálise.

Penso que a “falta de legislação” na psicanálise não permite e nem estimula a formação de profissionais desqualificados. Veja bem que a psicanalise não é regulamentada ou legislada por órgãos oficias do governo. Mas isso não significa que a psicanálise seja um bagunça total. Com mais de 100 anos de ciência, a psicanálise é uma profissão bastante rígida em termos de percurso de formação, supervisão e atualização profissional. Eu não conheço psicanalistas que “se formaram em psicanálise” e se deram ao luxo de parar de estudar (ao contrário de muitos médicos, dentistas e advogados); não porque os psicanalistas são os seres mais inteligentes do mundo, mas simplesmente porque é fundamental que se continue estudando, participando de grupos de estudos, realizando análise pessoal, etc.

Pela minha experiência, as faculdades de psicologia, por exemplo, que são oficializadas e regulamentadas, não preparam um bom profissional clínico. A maioria dos psicólogos graduados sentem necessidade de fazer cursos de formação se desejam atender na clínica de maneira mais ou menos razoável. Isso porque o curso de psicologia é mais um apanhado de aspectos gerais do que uma formação especifica. Todavia, o diploma de psicólogo permite que o sujeito atenda em clinica particular. Agora, pense na “validade” deste diploma, pense no status de suposta certificação que se obtém. Os próprios professores universitários concordam que alunos recém-formados em psicologia não estão plenamente capacitados para a atividade clínica. E quem está? Portanto a certificação ou regulamentação não garante qualidade. Pelo contrário, a regulamentação pode oferecer uma suposta e falsa segurança ao analista.

As sociedades psicanalíticas de todo o mundo não aceitam a ideia de regulamentação pelo simples fato de que a psicanálise já é regulamentada. Penso que a regulamentação visa também reconhecimento social da psicanálise, coisa que já aconteceu ao longo destes mais de 100 anos.

O surgimento de “sociedades psicanalíticas espúrias”, em suas palavras é uma consequência de se viver em sociedade. Não há como defendermos uma ideia de psicanálise perfeita, porque a psicanálise é uma ciência por vir, é uma ciência em permanente construção, imperfeita e deve estar aberta ao contexto de cada cultura que a abriga. Outra coisa indesejável que vem junto com a regulamentação é a ideia de que apenas médicos e psicólogos podem atuar na área clinica. O caráter aberto da psicanálise fez com que Renato Mezan (filosofo), Virginia Bicudo (socióloga), Melanie Klein (não se formou oficialmente) pudessem contribuir para o corpo teórico e prático da nossa área.

A sugestão de Jorge Forbes de se criar um faculdade de psicanálise (creio que você está se referindo ao texto “O Analista como Ensinante”), ao meu ver é inócua, porque já existem “faculdades de psicanálise” que são as sociedades, centros, núcleo de formação espalhados pelo mundo e que fazem muito bem seu trabalho. E mais, a psicanálise está dentro das universidades brasileiras onde se pesquisa e publica muito (Luiz Monzani, Benilton Bezerra Jr., Jurandir Freira Costa, Daniel Kupermann, Richard Simanke são professores universitários)

Penso que seria mais importante as faculdades brasileiras copiarem o modelo didático dos centros de formação em psicanálise do que o contrário. A formação psicanalítica tem aspectos didáticos e práticos muito interessantes que poderiam ser utilizados como modelo para instituições educacionais oficiais, como as universidades.

Não há como garantir a qualidade total dos profissionais formados em qualquer área. O que se faz é tornar o percurso de formação mais denso e efetivo. Isso é que precisamos buscar se desejamos formar bons analistas. O sucesso ou fracasso de um profissional vai ser determinado depois, no dia-a-dia da clínica, na lida direta com os pacientes.

Saudações

7 comentários

  1. Concordo plenamente com Luís, pois se tem algo que é muito bem estruturado é a formação de uma psicanalista, que não envolve somente o estudo teórica, mas envolve a própria vivência da análise na posição de analisando, além de supervisões, que garantem a qualidade do trabalho do profissional. Digo mais, não existe nenhuma outra instituição ou curso, que capacite seus alunos como numa formação em psicanálise. Nem os cursos de medicina são dignos dessa virtude, quanto mais os cursos de psicologia, que não passam de um amontoado de informações desordenadas e que não dão subsídio teórico, muito menos prático para que um psicólogo atenda em clínica psicanalítica com dignidade. E como todos sabemos, caso regulamente-se o exercício da psicanálise logo cairemos em picuinhas e interesses financeiros que são bem do feitio de médicos e talvez até de psicológos, pois se acham donos de determinadas ciências, e por isso com certeza reinvidicarão o exercício da psicanálise restritamente para si. Quanto aos psiquiatras nem preciso dizer que eles só estudam a mente de forma mecânica, e portanto a grande maioria não entendem nada sobre o verdadeiro âmago da mente, e sim de seu funcionamento orgânico apenas. Além do fato de que psicanálise não é uma ciência somente com vistas a curar psicopatologias, ela é maravilhosamente compatível com o autoconhecimento, visando o entendimento de nossa personalidade, e proporcionando ao indivíduo uma convivência melhor consigo mesmo. E sabemos das contribuições de grandes filósofos e até de Melanie Klein, que não era nem médica nem psicóloga, pois para que se entenda psicanálise não é necessário um diploma, é necessário apenas o interesse e o desejo de saber a verdade sobre si, o que torna a psicanálise uma ciência universal, e não algo restrito. Um grande abraço Luís!

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  2. Excelente esclarecimento. De fato concordo com o autor do texto da resposta. Também entendo o colega que fez a pergunta – até pouco tempo essa era uma das minhas inquietações contra a Psicanálise. Hoje estudo Psicanálise e vejo que tudo depende como o aluno entende o curso. Além das análises, a formação de todo psicanalista requer muita pesquisa, muito estudo. No caso do Brasil, um curso de Psicanálise reconhecido por um orgão como o MEC, só irá “engessar” o conhecimento. Não é por acaso que há filósofos e professores de filosofia ( duas coisas diferentes) e, Psicólogos e professores de Psicologia.

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  3. Discordo totalmente destas colocações. Fui analisado durante muito tempo, ficando bastante frustrado com o que encontrei: pseudo-terapeutas que nada sabem de psicologia, psicanálise ou que que quer que seja, porque para abrir um consultório de psicanálise não é preciso ter estudado tanto assim. Aliás, cheguei a conhecer “analistas” que mal leram Freud, o que não os impediu de sair por aí analisando os outros. Quanto às minhas sessões, consistiam em observar um sujeito olhando para minha cara sem dizer nada e cobrando caríssimo. Como técnica terapêutica é de uma nulidade atroz. O problema é que a psicanálise considera uma espécie de blasfêmia, de absurdo intolerável a mera cogitação de regulamentação da profissão. Aliás, desde o tempo de Freud se entende que para ser analista basta ter passado por análise didática, pouco importando se a pessoa que vier a abrir um consultório tenha conhecimentos mínimos de psicologia, de medicina ou de qualquer outra coisa. Há um número considerável de psicanalistas que são absolutamente incompetentes para fazer um diagnóstico, de tão rasa e medíocre sua “formação”. Portanto, impossível concordar que a psicanálise é rígida em termos de formação e supervisão, porque nunca vi, repito, nunca vi, um completo boçal ou picareta ser impedido se ser psicanalista por nenhuma sociedade de psicanálise. Aliás, caso você não saiba, há cursos de “formação” de analistas pela internet. Quanto a dizer que a psicanálise conta com mais de cem anos de ciência, é preciso lembrar que o método psicanalítico não tem rigorosamente nada de “científico”, já que os psicanalistas interpretam o que o analisando diz do jeito que bem entendem. Dez psicanalistas diferentes fazem dez “diagnósticos” inteiramente distintos sobre o mesmo caso, fora que os próprios psicanalistas são inteiramente avessos a qualquer avaliação isenta e objetiva dos índices de melhora ou de cura feitos por pessoas de fora. Se é “ciência”, é uma ciência bem diferente, porque não tolera críticas nem questionamentos, bastando que os analistas digam que “curam” para que tal assertiva seja considerada “provada”.

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  4. Em nada importa o reconhecimento formal da profissão, o contexto da regulamentação do profissional tem cunho controlador, com vistas a formas mais eficientes de se cobrar impostos e taxas sindicais e taxas regulatórias… É só dinheiro. A existência de regulamentação e de conselho de classe não significa que o profissional é bom. Psicanálise, psicologia, fonoaudiologia… Em um contexto científico, que me perdoem os crédulos, se encaixa perfeitamente no contexto de charlatanismo, pois não há consenso científico em nada do que se encontra, não há dissertações, teses, livros, artigos científicos cujos métodos de pesquisa puderam ser reproduzidos e apresentaram os mesmos resultados, todos os resultados são conflitantes ou discordantes. Portanto, não são ciências.

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