MASSACRE NO RIO DEVE SER TRATADO COMO PROBLEMA DE EDUCAÇÃO NÃO DE SEGURANÇA PÚBLICA


Wellington Menezes, 24, gostava de cães e gatos, não se drogava, não tinha amigos, era virgem e puro

Parece que o Brasil foi colocado no mapa dos massacres em escolas que vem acontecendo há décadas no mundo. Depois da tragédia o pensamento humano segue no sentido de (1) explicar porque uma pessoa faz isso; (2) como evitar novos massacres. Vou tentar colocar esses dois pontos. E finalmente, uma pergunta que sempre me faço é: por que o ambiente escolhido é a escola?

POR QUÊ?

É impossível explicar porque exatamente uma pessoa é levada a realizar um massacre, mas supõe-se uma psicopatologia, talvez a psicose e então entram os psiquiatras e psicólogos. Wellington Menezes de Oliveira, 24, ex-aluno da escola alvo da tragédia, pode ser facilmente diagnosticado como psicótico. Mas para nossa análise pouco importa o diagnóstico psiquiátrico. O garoto era tímido, não tinha amigos, era religioso e amava os pobres animais que são indefesos e abusados pelos seres humanos. Ora, grande partes de garotos que sofrem de “bullying” nas escolas tem este perfil. São jovens “outsiders” por assim dizer. A tentativa de buscar traçar um perfil psicológico e de conduta que esteja mais ou menos associado a algum tipo de comportamento criminoso cria na sociedade mais pré-conceitos, mais exclusão e possivelmente mais atos abomináveis desse tipo. Isso é interessante, para os profissionais poderem fazer diagnósticos, não como informação jornalística.

Na mente de Wellington existiam ideias religiosas (o assassino frequentava uma igreja Testemunha de Jeová) que o confortaram e o encorajaram neste ato. De acordo com sua carta, ele se considerava “puro e virgem” e ninguém poderia tocar em seu corpo puro, como se ele estivesse sendo guiado e avalizado por uma força suprema. Esta força sem dúvida era deus, para ele. E deus era um delírio, fruto de sua doença mental.

Alguns alunos disseram que ele foi seletivo na busca de alvos e preferiu as meninas. O fato de ser um virgem de 24 anos e apegado à mãe (morta pouco tempo atrás) nos dá algumas pistas para uma possível origem de sua psicose. Uma estranha relação de amor e ódio incontidos ao sexo oposto pode ter levado Wellington a matar, ou seja, “purificar” as meninas pecadoras, pois essa era sua missão divina dada pela falecida mãe adotiva. Welington muito provavelmente teve visões da mãe morta, lhe dizendo que ele era uma espécie de salvador e que após a morte a purificação aconteceria. Deus, por intermédio da oração de um fiel, o perdoaria pelos crimes cometidos; e isso indica que Wellington não era louco, sabia bem o que estava fazendo, no entanto, seguia uma lógica própria, uma logica psicótica rompida com a realidade compartilhada por nós. Jesus então viria acalentá-lo e acordá-lo, em outras palavras, levá-lo junto da mãe que estava pura e santa. Para um psicótico a realidade é vista por nós como distorcida, mas para ele é a única saída viável, porque esta realidade o persegue.

Outro aspecto importante da vida desse rapaz era que ele vivia muito mais no mundo virtual, a internet. Esse foi seu parque de diversões, essa foi sua escola era lá que Wellington fazia sexo, tinha namoradas e aprendeu a dar tiros e recarregar armas de forma eficiente e não no mundo real. Wellington não suportava o mundo real. Wellington destruiu toda sua casa e queimou completamente seu computador antes de sair para cometer o massacre em Realengo, pois se tivéssemos acesso às informações contidas no computador do assassino ele mostraria aspectos humanos da sua existência impura na terra.

COMO EVITAR?

O perturbante dessa história é o fato de que nós seres humanos somos pouco previsíveis, e toda ciência comportamental e neurocientífica não pode dar conta de explicar a mente humana totalmente. Como um rapaz pacífico, franzino, sem histórico criminal de uma hora para outra comete tal ato? As primeiras ações no sentido de evitar que isso volte a acontecer geralmente são dirigidas à segurança publica. Colocar catracas eletrônicas e seguranças armados nas escolas, regular a venda de armas e fiscalizar cursos de tiro são as favoritas e acho que tudo isso pode ser feito em caráter paliativo emergencial. O problema dos assassinatos em escolas deve ser encarado como um problema de educação por que não é a toa que as escolas são as escolhidas. A escola é, na maioria das vezes, o primeiro ambiente de socialização do sujeito, onde ele primeiramente se relaciona com outras pessoas fora de sua família. O mais estranho disso tudo é que em toda a mídia que pude ter acesso, nenhum pedagogo, nenhum diretor de escola foi chamado a dar sua opinião publica sobre o fato.

Para terminarmos, é urgente:

(1) que iniciemos uma reforma escolar ampla. Reformular currículos dando peso maior, em carga horaria e importância, em disciplinas humanas e artes (filosofia, sociologia, psicologia, mídias digitais, etc.)

(2) que em toda escola tenhamos profissionais da “área psi” (psicólogos, psicanalistas ou psiquiatras) efetivados, que atuem junto com a coordenação no sentido de compreender o ambiente escolar que se mostra hoje em perturbante mudança.

 

 

Anúncios

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s