ENTREVISTA SOBRE REALITY SHOWS


Em tempos de ‘espiadelas’ por todos os lados, nada melhor que pensarmos sobre o efeito ou a razão disso. Explico. Ao buscar saber o que pensa e quais considerações seriam relevantes para um psicanalista acerca dos programas chamados “Reality Shows” (ex: Big Brother, A Fazenda, etc.), foi que resolvi elaborar uma pequena entrevista, a contar com a ajuda de um amigo, Bruno Maríncolo, para a formulação das perguntas em geral. Os apontamentos de um psicanalista sobre um assunto tão em voga, pensamos, são de grande importância para uma maior compreensão das diversas dinâmicas envolvidas em um jogo que mistura, além da vontade de ‘sobreviver ao próprio jogo’, outros sentimentos os mais humanos da parte de todos os participantes. E, principalmente, na medida em que estes que jamais foram vistos uns pelos outros anteriormente, agora têm que conviver num só e único ambiente – em geral, uma casa – tendo como principio básico para tal convivência (acredita-se!), a tolerância e o respeito. Mas chega de “BBB”, digo, “Blá Blá Blá”, e vamos às perguntas. O psicanalista convidado para a entrevista é Luis Fernando S. de Souza Pinto, que trabalha em Ribeirão Preto. Luis Fernando* é formado em Ciências Biológicas com mestrado em Psicobiologia pela USP-RP e formação em psicanálise pelo Núcleo Távola.

G.Z – Olá Luis Fernando, bom dia! Primeiramente, agradecemos muito sua participação, e quero dizer que essa entrevista será publicada em meu blog, sem edições ou cortes (www.guilhermezufelato.wordpress.com). Ficamos felizes por ter aceitado o convite a responder algumas de nossas questões sobre Reality Shows, um assunto tão em voga. Bom, minha pergunta inicial, basicamente, é sobre o que você pensa acerca desse tipo de programa no sentido do ‘porquê’ que isso (uma casa com pessoas confinadas) causa tanta curiosidade na grande maioria das pessoas? Essa curiosidade, e até um certo prazer em ver as outras pessoas ‘na intimidade’ é, no fundo, uma característica do ser humano?

L.F – Bom, é difícil de dizer se a curiosidade de espionar pessoas em sua intimidade consiste em uma característica humana, em termos biológicos. Porque é bastante difícil distinguir entre uma característica humana, definida geneticamente e uma característica humana moldada ou, até mesmo, criada pela cultura. Ficaremos então com uma mistura das duas coisas, tudo é biológico e ao mesmo tempo cultural, as duas coisas estão juntas e inseparáveis. Precisamos seguir algumas pistas, como o fato de que hoje a miséria humana se define de outra maneira do que se definia talvez há milhares de anos, numa situação da “horda primitiva” (situação imaginária de um ponto em que a civilização não tinha atingido a complexidade de hoje), como descreveu Sigmund Freud. Hoje, o homem vive e adoece de outras formas, por exemplo, temos distúrbios psíquicos diferentes, comemos coisas diferentes, gostamos de formatos de mulheres diferentes, nos comunicamos de modo diferente, e por aí vai. Característica marcante de nossa época é que passa a ser mais interessante ver as coisas pela televisão, celular, ou computador do que vivenciar isso como sempre se fez. A virtualidade da vida marca nossa época e assim ver um filme ou uma novela passa a ser a principal atividade da família quando está unida, lá pelas 8 da noite quando passaram o dia todo trabalhando para ganhar nada ou estudando pra ser “alguém na vida”. Isso acontece com a maioria da população mundial, não sendo um fenômeno isolado. Então os aparelhos eletrônico entram como um apaziguador da vida, como a droga “soma”, no livro “Admirável Mundo Novo”, de Aldoux Huxley. Um “segura leão” das famílias que estão na base ou no meio do cadeia produtiva capitalista… Afinal, você não pode e não deve ir Copacabana, viver numa cobertura, e sua vida não toca bossa nova como trilha sonora, mas você pode fantasiar isso por meio da televisão.

Agora chegamos ao ponto. Se há uma característica humana básica e estrutural, que acredito, é a capacidade humana de subjetivar objetos e criar fantasias. Essas fantasias, pela psicanálise, não são como no carnaval, em que as homens se vestem de mulher e sabem disso, etc., mas funcionam como um pano de fundo de nosso pensamentos e ações cotidianas de modo que não sabemos que elas existem, são inconscientes. Uma das déias centrais da psicanálise é o complexo de Édipo, que coloca que o filho ou filha possuem inclinações agressivas por um dos provedores e inclinações bastante eróticas por outro provedor. Isso a psicanálise coloca em termos de fantasias inconscientes e jamais afirmou que seu filho vai fatalmente querer te dar um tiro e levar sua esposa pra cama, de modo algum. E no meio dessa cena de fantasia, o menino ou menina se questiona: O que meu pai e minha mãe estão fazendo lá dentro desse quarto? O garoto até, porventura, ouve sons de gemidos, barulhos, e uma curiosidade forte, um sentimento proto-cientifico o arrebata, a ponto da criança muitas vezes desejar dormir com os pais. Acho que nesses “reality shows” ocorre como uma volta a este estágio em que tivemos pela primeira vez um impulso de “saber o que esta acontecendo lá”, entre quatro paredes.

G.Z / B.M – Sabemos que uma pessoa, num sentido comum da palavra, pode “pirar” a qualquer momento e talvez pelo mais simples motivo. Mas considerando o ambiente de convivência desses programas, os Reality Shows (que como o próprio nome diz é a vida mostrada ao vivo como é ou como pode ser), e as condições de confinamento a que os participantes são colocados (ficar longe da família; dos amigos; de um amor; a falta de sexo, etc.), o que você pensa sobre as proporções a que isso pode chegar, psicologicamente falando, numa situação de grande stress como uma marca psicológica – um trauma, talvez – para a vida de uma pessoa após sair de um programa desses?

L.F – Acho que o que conta nesse caso são os milhões de reais que a pessoa pode ganhar e toda a exposição na mídia que ela irá obter. Desse modo o confinamento e as privações podem ficar em segundo plano em certos momentos, uma coisa compensa a outra. O ser humano é um bicho altamente adaptável, embora não tenhamos grandes armas contra as adversidades do meio, e essa qualidade nos trouxe até aqui e com sucesso. Isso é diretamente ligado ao fato de nosso cérebro ser uma maquina muito plástica e moldável a diversas situações e também por isso, a psicanálise e outras psicoterapias fazem algum efeito. Um trauma ou coisa do tipo pode ocorrer, mas ao mesmo tempo pode se livrar dele, ou das agressões que ele causa em nós.

G.Z / B.M – Ao assistir a esses Reality Shows podemos perceber, de maneira ainda mais evidente, o quanto a questão da confiança, da honestidade, enfim, da amizade e das relações íntimas, são importantes para a grande maioria das pessoas. Aparenta ficar mais claro ainda, o quanto buscamos estabelecer uma relação que seja plena e de confiança mútua com alguma pessoa, tão logo a conhecemos. Todavia, nos dias de hoje algumas pessoas têm a tendência, senão o hábito, de dizer que não se pode mais confiar em ninguém, ao mesmo tempo em que (todas) elas se julgam ser confiáveis… Mas isso é pura contradição, ou apenas uma característica dos chamados “homens modernos”, sabemos bem. Absolutamente, precisamos dessa relação de confiança com as outras pessoas ainda que, às vezes, nos decepcionemos, que falemos por aí que pensávamos conhecer aquela determinada pessoa, agora uma traidora, etc., e isso ao mesmo tempo em que não nos damos conta de que também, no fundo, não nos conhecemos muito bem, de que não sabemos de nossa própria potência para fazer as coisas, boas e ruins. Em que medida, portanto, você acha que as pessoas deixam de confiar nas outras e isso pode afetar a própria autoconfiança delas para a vida? A confiança – e por conseqüência a relação íntima de modo geral – é algo em plena decadência no século XXI? Se sim, talvez isso seja uma explicação suficientemente boa para a questão do uso, cada vez mais comum, dos chamados antidepressivos, na medida em que as pessoas têm a impressão de que esse tipo de remédio trará aquela mesma confiança já não encontrada num estado natural de saúde, você concorda?

L.F – Bom, temos os pontos: depressão, confiança e a tal da modernidade. Do que sei, o homem moderno perdeu referenciais com os quais contava em outras épocas, como a existência de um ser supremo chamado Deus. Claro que as pessoas continuam fiéis à algum Deus, mas de modo diferente. Você tem hoje políticos que até vão a missa e crêem em Deus, mas que no seu cotidiano, roubam, matam, enfim, cometem pecados contras as leis de Deus. Eles são homens modernos, que perderam qualquer tipo de medo dessa figura de Deus. E ai vem uma crise total, tudo desaba. Agora, a idéia de Deus como aquele que olha por nós para não fazermos besteira, foi refomatada, teve um “upgrade”. Hoje o aspecto vigilante de Deus está condensado em emissoras de TV, como a Rede Globo, que sempre solta algumas matérias com câmeras escondidas, em que “tal deputado” recebeu dinheiro indevido e colocou na meia. Pode ter certeza essa tal de câmera escondida da globo arrepia gente corrupta, porque lembra aquele velho Deus, aquele Deus que perdemos, que pode estar em todo lugar, que tudo vê, e que vai te julgar mesmo. Nesse sentido, as câmeras do Big Brother são esses olhos de Deus, que tudo vê, que tudo pode. Ou melhor, o espectador tem essa sensação de ser Deus: Ele vê tudo e decide quem morre e quem vive; tudo isso sentado na poltrona de sua sala, pela TV e telefone.

Me diga então: Se o homem moderno perdeu referenciais básicos de moral e ética, a ponto de nem mesmo confiar nele e nem saber que é ele de fato, como confiar em um outro? O Moisés, que já sabia disso, colocou nos Dez Mandamentos: “Amar o próximo com a ti mesmo”; justamente porque isso é difícil demais e vai contra nossa natureza em alguns momentos. No big brother e em qualquer grupo humano os grupos vão se formando ou, como no caso atual dessa edição, já se formaram artificialmente (grupo dos cabeças, dos belos etc.), e as rixas acontecem mesmo dentro dos grupos; de modo que as pessoas lá pensam: “Mas você é do meu grupo, porque você votou em mim, porque você me prejudicou?” Essa é a crueldade do jogo do “grande irmão”. Ele coloca as pessoas em grupos artificiais, em castas (como no livro “1984”, de George Orwell, de onde foi tirado o título do programa de TV), com o dever imposto de se ajudarem mutuamente, mas ao mesmo tempo cada um deve lutar e jogar para ganhar a grana em questão. E no meio disso tudo tem: Amor, sexo, ódio, vingança, amizade, resistência e vários outros sentimentos e valores humanos desejados hoje em dia. É a formula do sucesso de um produto. Tudo que mais se preza é o que menos se tem. Aí já temos uma ponte pra discutir certas compulsões como as de consumo, de abuso de drogas etc. E também o sentimento de culpa de não poder ter tudo, ser tudo no mundo… e daí para sintomas depressivos é um pulo. Você acaba se sentindo o pior dos seres ao ver uma capa de revista, ou em ver que belo corpo tem essas pessoas, que belos sorrisos eles mostram. Dessa forma, ou você entra no esquema e vai à academia, come bem, mostra que é feliz ou vira um outsider depressivo. Junto dessas opções fáceis e rápidas de se atingir um ideal, temos os remédios psicotrópicos receitados muitas vezes, indiscriminadamente. Coisa que chega no nosso consultório como se a pessoas estivesse de camisa de força, é impressionante. Veja bem, não estou falando mal de psiquiatras e muito menos de remédios, pois minha formação foi nessa direção (Luis estudou durante alguns anos a síndrome de abstinência de diazepam em animais de laboratório), mas precisamos acabar com essa ideia tosca e muito vendida e aceita de normalidade e felicidade que adoece nossas vidas. Lembro agora de uma música do Beck, chamada “Modern Guilt”, que explica muito melhor essas coisas.

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Entrevista realizada no dia 03/02/2010, por Guilherme Zufelato e Bruno Maríncolo, com o psicanalista Luis Fernando S. de Souza Pinto, que trabalha em Ribeirão Preto-SP.

“Modern Guilt”

I feel uptight when I walk in the city
I feel so cold when I’m at home
Feels like everything’s starting to hit me
I lost my bearings ten minutes ago

Modern guilt, I’m stranded with nothing
Modern guilt, I’m under lock and key
Misapprehension
Is turning into convention
Don’t know what I’ve done but I feel ashamed

Standing outside the glass on the sidewalk
These people talk about impossible things
And I’m falling out of the conversation
And I’m a pawn piece in a human shield

Modern guilt is all in our hands
Modern guilt won’t get me to bed
Say what you will
Smoke your last cigarette
Don’t know what I’ve done but I feel afraid

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